A relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos atingiu um novo patamar de tensão com a decisão de Washington de não renovar o visto da embaixadora brasileira em solo americano, Maria Luiza Viotti. A medida impede a diplomata de exercer suas funções e representar os interesses nacionais no país, configurando o ponto mais crítico de uma crise diplomática que analistas preveem durar ao menos até as eleições presidenciais de outubro nos Estados Unidos.
A revogação do visto, comunicada pelo Departamento de Estado americano, é vista como uma resposta direta à recusa do governo brasileiro em conceder o aval diplomático formal (agrément) ao indicado do ex-presidente Donald Trump para a embaixada em Brasília, o deputado republicano Daniel Perez. Além disso, o Brasil também vetou vistos de diplomatas americanos em julho, alegando que estes planejavam questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
Em nota oficial, a Presidência da República repudiou a decisão dos EUA, classificando as justificativas americanas como “falsas”. O Palácio do Planalto argumentou que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas prevê sigilo no processo de concessão de agrément, com o nome do indicado só vindo a público após a anuência.
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência também mencionou o cancelamento de vistos de autoridades brasileiras, incluindo ministros e membros do Supremo Tribunal Federal (STF), sob a alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O governo brasileiro classificou a ação americana como uma “escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas” e uma tentativa de “interferir na próxima eleição para presidente”.
Potencial de novas retaliações e o cenário eleitoral
Diplomatas e analistas ouvidos pela reportagem indicam que a situação pode piorar, com a possibilidade de novas retaliações, incluindo sanções econômicas e o cancelamento de vistos de outras autoridades brasileiras. O deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara, previu que “só vai piorar”.
Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da FGV, avalia que o impasse está inserido no contexto de pressão americana sobre o processo eleitoral brasileiro. Ele sugere que o desfecho da crise pode depender do resultado das eleições: caso Jair Bolsonaro vença, a relação pode ser restabelecida rapidamente; se Luiz Inácio Lula da Silva for reeleito, a incerteza sobre a continução da embaixadora Viotti sem credenciamento ou o início de novas negociações persiste.
Ainda segundo Paz Neves, a decisão pode ser parte de uma estratégia de pressão comercial da diplomacia americana, onde medidas duras são adotadas para abrir caminho para negociações futuras.
Desgaste na relação bilateral e críticas à diplomacia brasileira
A relação entre Brasil e Estados Unidos tem se deteriorado desde o início do segundo mandato de Donald Trump. Washington expressa desconfiança sobre o alinhamento de Lula com regimes autoritários, a aproximação com a China e a proposta de desdolarização do comércio internacional. Por outro lado, o Brasil tem reiterado críticas sobre uma suposta postura imperialista dos EUA na América Latina.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, critica a postura do governo Lula, argumentando falta de pragmatismo nas relações com a Casa Branca. Para ele, o “represamento prolongado da anuência” e o veto a funcionários americanos “extrapolam a cortesia internacional”, transmitindo uma imagem de “omissão e má vontade”. Coimbra aponta que o “tom público confrontacional” por parte da diplomacia brasileira “abandona os canais de negociação velados e agrava o desgaste de imagem do Brasil em Washington”.
Coimbra prevê que o aval para o novo embaixador americano só ocorra após as eleições, deixando a representação brasileira sem comando titular e gerando um “isolamento funcional”. Ele alerta que, mesmo com a eventual concessão do aval e a recuperação do visto de Viotti, o episódio “deixará cicatrizes permanentes na confiança mútua”. Em um cenário de aprofundamento do impasse, os EUA poderiam adotar retaliações comerciais seletivas ou suspender acordos de cooperação tecnológica e de defesa, expondo o país a custos “desproporcionais”.
As informações foram reunidas a partir de análises de diplomatas, parlamentares e analistas internacionais ouvidos pela Gazeta do Povo.
