Impactos Psicológicos da Emergência Climática em Comunidades Vulnerabilizadas
As mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça distante para se tornarem uma realidade palpável, com efeitos concretos na saúde física e mental de populações em todo o mundo. Relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Lancet Countdown on Health and Climate Change alertam que eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, queimadas e inundações, têm exacerbado quadros de ansiedade, sofrimento psicológico, depressão e forçado deslocamentos, especialmente em comunidades historicamente vulnerabilizadas.
No Brasil, essa crise silenciosa começa a ganhar destaque através da articulação entre pesquisadores, movimentos sociais e as próprias comunidades afetadas. Um projeto recém-aprovado busca integrar a saúde mental às políticas públicas de clima, propondo um mapeamento nacional para identificar lacunas e oportunidades de ação. Essa iniciativa surge em um momento crítico, com a intensificação de secas históricas, queimadas na Amazônia e ondas de calor, evidenciando a urgência de políticas públicas eficazes e integradas.
A saúde mental, frequentemente negligenciada nas políticas globais de adaptação climática, é particularmente afetada em populações que dependem diretamente da natureza para sua subsistência material, cultural e espiritual. Para povos indígenas e quilombolas, a floresta e os territórios são sistemas de cuidado, fontes de alimento, cura e equilíbrio emocional. A crise climática, portanto, se traduz em uma crise de saúde mental, de memória e de continuidade de seus modos de vida ancestrais.
Vozes da Amazônia: A Crise Climática no Corpo e na Alma
Em comunidades como a Indígena Kumaruara, no Baixo Tapajós, a seca severa forçou famílias a deixarem seus lares, impactando não apenas o físico, mas o equilíbrio emocional e espiritual. Lideranças relatam a escassez de água como um fator de sofrimento, especialmente para mulheres e crianças, minando a abundância que antes caracterizava a região. A floresta, vista como fonte de cura e conexão espiritual, torna-se frágil diante das queimadas, comprometendo a capacidade de cura dos Pajés e a conexão com os encantados, elementos essenciais para o bem-estar físico, psicológico e espiritual.
Os mais velhos, com condições de saúde preexistentes, sofrem de maneira ainda mais acentuada. O Pajé Naldinho, de 31 anos, expressa a gravidade da situação: “Sem essa conexão, não há razão para resistir. Essa é a nossa verdade.” A mudança climática afeta todos os seres, e a perda dessa conexão vital ameaça a própria resiliência e a vontade de continuar lutando pela sobrevivência e pela cultura.
Comunidades Quilombolas: Ameaças à Sobrevivência e ao Bem-Estar
Nas comunidades quilombolas do Pará, o avanço do desmatamento, da monocultura e da poluição dos rios tem gerado sofrimento psicológico, ansiedade e uma profunda sensação de perda. A restrição ao acesso a territórios tradicionais para cultivo, pesca e coleta de ervas medicinais compromete a soberania alimentar e o bem-estar comunitário. Lideranças relatam casos de depressão, ansiedade e hipertensão ligados a conflitos territoriais e ao uso de agrotóxicos por grandes empreendimentos agrícolas.
Em Abaetetuba, a insegurança territorial, a perda de roças e a invasão de empresas sobre áreas quilombolas aumentam a violência e as preocupações cotidianas. A dificuldade de acesso ao cuidado em saúde mental agrava o quadro: o distanciamento geográfico dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e a ausência de serviços permanentes nos territórios dificultam a continuidade do tratamento, resultando em abandono e agravamento dos quadros de adoecimento mental.
Para povos indígenas e quilombolas da Amazônia brasileira, a saúde é intrinsecamente ligada ao território, aos rios, à floresta, à ancestralidade e aos modos coletivos de vida. A crise climática, portanto, exige uma compreensão integral e territorializada da saúde, reconhecendo os saberes tradicionais como parte fundamental das respostas necessárias à adaptação climática e à garantia do bem-estar dessas comunidades.
