Cientistas desenvolvem catálogo para identificar vírus com potencial pandêmico
Em um esforço para antecipar e combater futuras ameaças globais à saúde, cientistas da Universidade de Edimburgo desenvolveram um catálogo inédito que visa identificar vírus com potencial pandêmico. A ferramenta se baseia em décadas de estudo sobre como vírus emergem, se espalham e causam epidemias, buscando fornecer um guia para alertar sobre potenciais “doenças X” antes que se tornem crises de saúde pública em larga escala. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The Conversation.
Anualmente, cientistas identificam entre dois e três novos vírus que nunca haviam infectado humanos. Embora a maioria dessas descobertas atraia pouca atenção, a história demonstra que alguns deles podem evoluir para se tornar agentes de pandemias devastadoras. Exemplos notórios incluem o HIV-1, que desencadeou a crise da Aids, e o SARS-CoV-2, responsável pela pandemia de Covid-19, ambos resultando em milhões de mortes.
O novo catálogo foca especialmente em vírus cujo material genético é composto por RNA, um grupo que tem sido o principal responsável por pandemias recentes. A ferramenta analisa características como a capacidade de transmissão entre humanos e a gravidade da doença causada, cruzando esses dados com o histórico de surtos anteriores.
A evolução viral e o risco pandêmico
A capacidade de um vírus se espalhar entre pessoas é um fator crucial para o potencial pandêmico. Enquanto muitos vírus são zoonóticos, ou seja, transmitidos de animais para humanos, mas com baixa capacidade de contágio interpessoal (como a raiva), a preocupação reside na evolução desses patógenos. A possibilidade de um vírus zoonótico adquirir a habilidade de se disseminar eficientemente entre humanos é um dos maiores temores da comunidade científica, embora não haja exemplos documentados de vírus de RNA que tenham feito essa transição de forma significativa.
Uma ameaça mais concreta surge de vírus que já possuem alguma capacidade de transmissão entre humanos. Estes podem se tornar mais transmissíveis, como visto em variantes do SARS-CoV-2. O catálogo considera que vírus que já causaram surtos limitados, mesmo que com um número R (taxa de transmissão) baixo, representam um risco maior, pois esse número pode aumentar drasticamente ao atingir centros urbanos ou novas populações suscetíveis.
Ferramenta para prever a “Doença X”
O catálogo inclui vírus que já causaram epidemias significativas, como Ebola, Chikungunya, Zika e Mpox, servindo como um alerta. Ao analisar a relação evolutiva desses vírus com outros que circulam entre humanos, os pesquisadores conseguem prever o perfil de futuras “doenças X”. O SARS-CoV-2, por exemplo, apresentava um perfil semelhante ao previsto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2018 para uma potencial “doença X”, sendo um coronavírus geneticamente próximo ao da SARS, mas com origem independente em morcegos.
Embora vírus como o Hantavírus dos Andes e o Ebolavírus de Bundibugyo, que recentemente causaram surtos, não apresentem, individualmente, o perfil para uma pandemia global, eles reforçam a importância da rápida detecção. O histórico demonstra que esses vírus já estavam circulando semanas antes de serem identificados, um tempo precioso que poderia ter sido usado para conter a disseminação. A identificação e compreensão mais rápidas de novos vírus são essenciais para minimizar o impacto de futuras pandemias, salvando vidas e protegendo a economia global.
