Novas diretrizes europeias reforçam a importância do acompanhamento integral no uso de medicamentos para perda de peso.
As chamadas “canetas emagrecedoras”, que revolucionaram o tratamento da obesidade nos últimos anos, podem apresentar riscos significativos à saúde física e mental se utilizadas sem o devido acompanhamento profissional. Um consenso recente, divulgado na conceituada revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology e elaborado por três importantes entidades europeias dedicadas ao estudo da obesidade e nutrição (EASO, EFAD e ECPO), alerta para a necessidade de uma abordagem multidisciplinar.
Os especialistas revisaram a literatura científica disponível até 2025 e, pela primeira vez, apresentaram recomendações práticas direcionadas a médicos, nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas. O foco principal é garantir que a perda de peso promovida por esses medicamentos, como os agonistas do receptor de GLP-1 (semaglutida) e os agonistas duplos de GLP-1 e GIP (tirzepatida), seja realizada de forma saudável e sustentável, indo além da simples redução na balança.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela The Lancet Diabetes & Endocrinology.
Riscos nutricionais e musculares em foco
A rápida perda de peso induzida por esses medicamentos pode levar à redução na ingestão de nutrientes essenciais, como proteínas, vitaminas e minerais. Essa deficiência pode resultar em perda de massa muscular, aumento do risco de desnutrição e comprometimento da capacidade funcional, especialmente em idosos. Para mitigar esses efeitos, o consenso recomenda a ingestão diária de pelo menos 60 gramas de proteína, distribuídas ao longo das refeições, e a priorização de alimentos ricos em fibras (mínimo de 25 gramas diários) para combater a constipação, um efeito adverso comum.
A hidratação também é um ponto crucial, com a recomendação de 2 a 2,5 litros de água por dia, pois a perda de sede pode levar à desidratação. Além disso, o documento enfatiza a necessidade de monitorar deficiências de nutrientes como ferro, vitaminas B12 e D, ácido fólico e zinco em pacientes de maior risco. Em casos de ingestão calórica abaixo de 1.200 kcal diárias, a suplementação com multivitamínicos pode ser indicada.
Saúde mental e a relação com a comida sob escrutínio
O consenso dedica um capítulo inteiro à saúde mental, abordando como esses medicamentos podem alterar profundamente a relação dos pacientes com a comida. Profissionais de saúde são orientados a investigar sintomas de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e mudanças na busca por prazer e recompensa. Embora alguns pacientes relatem o desaparecimento da “fome emocional” e da compulsão alimentar, outros podem experimentar perda de identidade, dificuldade em lidar com emoções e sensação de vazio, uma vez que a comida muitas vezes funciona como um mecanismo de conforto e prazer.
Especialistas como o endocrinologista Fabio Moura e o nutrólogo Guilherme Giorelli destacam que o objetivo do tratamento deve ser mais abrangente do que apenas atingir um peso ideal. A saúde engloba bem-estar físico, mental e social, e a medicação é apenas uma ferramenta dentro de um processo maior de mudança de hábitos e construção de um estilo de vida equilibrado.
Manejo de efeitos adversos e a visão do tratamento integral
Os efeitos colaterais gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação, devem ser gerenciados através de ajustes na dose, medicações e adaptações na dieta, em vez de uma interrupção imediata do tratamento. A publicação reforça que a perda de peso por si só não garante saúde; é a qualidade dessa perda, aliada a um suporte profissional contínuo, que assegura um futuro mais saudável para os pacientes.
