A ascensão dos análogos de GLP-1 e o impacto na cirurgia bariátrica
O caso de Vitótia Masiero, 23, biomédica que perdeu 20 quilos em oito meses com o uso de semaglutida, mas precisou suspender o tratamento por questões financeiras, ilustra um dilema crescente na abordagem da obesidade: a coexistência e, por vezes, a competição entre as chamadas canetas emagrecedoras e a cirurgia bariátrica. Vitótia, que chegou a pesar 140 quilos, buscava evitar a cirurgia com o uso do medicamento, cujo custo mensal de R$ 800 se tornou insustentável. A experiência a levou a optar pela bariátrica, procedimento que considera a “melhor decisão da vida”, apesar da necessidade de suplementação vitamínica a longo prazo, comparável à necessidade de uso contínuo da semaglutida.
A dinâmica observada por Vitótia reflete uma tendência notada por médicos: muitos pacientes que antes optavam pela cirurgia bariátrica agora buscam o tratamento com análogos de GLP-1, como semaglutida, tirzepatida e liraglutida. Essa mudança de percepção, que começou a se intensificar por volta de 2024, segundo especialistas, tem sido apontada como um dos fatores para a queda nas cirurgias bariátricas realizadas por planos de saúde. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam uma redução nos procedimentos após um pico no período pós-pandemia, com 73,6 mil cirurgias em 2023, caindo para 71,3 mil em 2024 e 62,2 mil no ano passado.
Luiz Vicente Berti, cirurgião da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), corrobora essa visão, atribuindo parte da diminuição das cirurgias à popularização das canetas emagrecedoras. No entanto, ele também aponta para mudanças no perfil dos usuários de planos de saúde, com a migração para planos de cobertura mais restrita, dificultando o acesso à bariátrica. Por outro lado, o setor privado tem visto um aumento: os procedimentos particulares sem plano de saúde cresceram quase 36% em 2025, totalizando 3,8 mil cirurgias, contra 2,8 mil em 2024.
Cenários distintos: SUS e rede privada
No Sistema Único de Saúde (SUS), o cenário é diferente. Os números de cirurgias bariátricas atingiram um recorde recente, com 14 mil procedimentos em 2025, o maior volume dos últimos anos. Desde o fim da pandemia, os dados têm apresentado crescimento anual. A rede pública prioriza casos graves de obesidade (IMC igual ou superior a 40, ou acima de 35 com comorbidades) após duas anos de tratamento clínico sem sucesso. Denis Pajecki, coordenador do Departamento de Cirurgia Bariátrica da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), explica que o aumento no SUS se deve, em parte, ao alto custo das canetas emagrecedoras, que as tornam inacessíveis para muitos pacientes do sistema público. Ele ressalta, contudo, que a fila de espera por cirurgias no SUS ainda é um desafio, apesar das iniciativas para ampliar o acesso.
Apesar da popularidade crescente das canetas emagrecedoras, os especialistas enfatizam que a cirurgia bariátrica continua sendo o método mais eficaz para o tratamento da obesidade grave. A diferença reside na seleção dos pacientes. Enquanto medicamentos como a semaglutida podem ser uma opção para muitos, a bariátrica permanece como a escolha principal para aqueles com graus mais severos de obesidade, especialmente quando outros tratamentos não surtiram o efeito desejado ou quando há recuperação do peso perdido após a interrupção da medicação. A tendência, segundo Pajecki, não é de perda de relevância da cirurgia, mas sim de uma triagem mais criteriosa dos pacientes que a ela se submetem, reconhecendo que diferentes abordagens funcionam para diferentes indivíduos.
As informações foram reunidas a partir de reportagens e dados divulgados pela Folha de S.Paulo e pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
