O trágico caso de uma adolescente de 13 anos, que morreu durante uma transmissão ao vivo no Discord após ser induzida à automutilação por um grupo, acende um alerta crucial para pais e responsáveis sobre os perigos da coerção online e a importância de identificar sinais de risco em seus filhos. A investigação policial revelou que a menina foi manipulada por terceiros, o que muda a avaliação clínica e legal do ocorrido, segundo especialistas. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) chegou a determinar a suspensão das transmissões ao vivo na plataforma no Brasil após o incidente.
A forma como um ato extremo é classificado, seja como suicídio ou resultado de coerção grave, impacta diretamente a maneira como pais e responsáveis devem agir. Karen Scavacini, doutora em psicologia e fundadora do Instituto Vita Alere, enfatiza que a participação ativa de terceiros na indução a comportamentos de risco altera a percepção do evento, não devendo ser automaticamente rotulado como suicídio. A investigação judicial, nesse contexto, é fundamental para determinar a classificação jurídica.
A psicóloga Juliana Prates, professora da UFBA e doutora em estudos da criança, complementa que essa distinção na avaliação do caso também influencia a abordagem familiar. Ela aponta sinais que merecem atenção redobrada, como queda abrupta no desempenho escolar, isolamento social mais acentuado que o usual para a adolescência, perda de interesse em atividades prazerosas e o hábito de esconder a tela ou desligar dispositivos ao ser interrompido. A rapidez com que essas mudanças ocorrem é um diferencial importante em relação ao comportamento típico da fase, segundo Prates.
Sinais específicos de coerção online
Karen Scavacini adiciona um conjunto de sinais mais específicos que podem indicar coerção online. Ansiedade ou pânico diante de mensagens recebidas, medo de uma pessoa ou grupo específico, necessidade de responder imediatamente a notificações, despertares noturnos para atender a demandas online, apagamento frequente de conversas, troca constante de plataformas digitais, pedidos de dinheiro sem justificativa clara e demonstrações de terror com a possibilidade de divulgação de imagens ou vídeos são indicativos de alerta. É importante notar que a presença de depressão, ansiedade ou histórico de comportamento suicida não é um pré-requisito para que uma situação de coerção grave desencadeie uma crise aguda, conforme alerta Scavacini, que também adverte contra a tendência de buscar retroativamente uma doença mental como explicação única após um evento trágico, o que pode minimizar a gravidade da violência sofrida.
Como iniciar a conversa sem intimidar
Um erro comum por parte das famílias, segundo as especialistas, é a reação com discursos alarmistas ou acusatórios. A proibição imediata do celular ou frases como “eu avisei que isso ia acontecer” podem levar o adolescente a se fechar em um momento em que mais precisa de apoio. Em vez disso, Scavacini sugere uma abordagem empática: “Percebi que alguma coisa está acontecendo e estou preocupado com você. Você não precisa me contar tudo de uma vez, mas, se alguém estiver te ameaçando ou fazendo você sentir medo, eu quero ajudar.”
O próprio caso do Discord pode servir como ponto de partida para iniciar o diálogo, já que muitos adolescentes provavelmente já ouviram falar sobre ele. O ideal é começar perguntando o que o filho sabe ou ouviu sobre o assunto e, gradualmente, avançar para verificar se algo semelhante já aconteceu com ele. Estabelecer um acordo prévio de que pedir segredo é um mau sinal e que os pais priorizarão ajudar antes de punir pode desarmar uma das principais táticas de quem coage: convencer a vítima de que falar só piorará a situação.
Controle do uso e responsabilidade compartilhada
Quanto ao controle do uso das redes sociais, Juliana Prates defende que a resposta não se limita à vigilância técnica. É essencial que as famílias ofereçam alternativas de lazer em grupo e mantenham um diálogo constante sobre o que circula nesses espaços. Karen Scavacini pondera que o controle parental é uma camada importante de proteção, especialmente para crianças mais novas, mas não é suficiente. Ela ressalta que responsabilizar apenas as famílias é um erro, pois a supervisão constante de todos os ambientes digitais é inviável. As plataformas, por sua vez, precisam aprimorar a identificação de padrões de aliciamento, ameaça e chantagem, além de criar canais de denúncia eficazes. O Marco Legal da Internet das Coisas (ECA Digital), sancionado em 2025, visa responsabilizar as plataformas pela prevenção de riscos a menores.
Em situações de risco imediato à vida, a intervenção adulta é necessária, com a interrupção de contatos e o acionamento da rede de proteção. Essa ação, no entanto, deve ser comunicada ao adolescente de forma que ele entenda que a medida visa protegê-lo da violência sofrida, e não é uma punição pessoal.
Para apoio e orientação, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188 e pelo site cvv.org.br. O Instituto Vita Alere (vitaalere.com.br) e a Abrases (abrases.org.br) também disponibilizam recursos, como grupos de apoio e materiais informativos sobre prevenção e posvenção do suicídio.
