A capacidade de contar e ouvir histórias, presente na humanidade há pelo menos 50 mil anos, pode ser a chave para a complexa cooperação social observada entre os seres humanos. Desde as primeiras pinturas rupestres até as narrativas contemporâneas, a arte de contar histórias parece ter desempenhado um papel fundamental na evolução e organização das sociedades.
A mais antiga imagem narrativa conhecida, encontrada em uma caverna na ilha de Sulawesi, na Indonésia, data de pelo menos 51,2 mil anos. Este painel de 4,5 metros de largura retrata humanos interagindo com animais, possivelmente uma cena de caça, mas também sugere interpretações mais complexas, com humanos exibindo traços não humanos, indicando uma narrativa imaginativa.
Filósofos e antropólogos apontam a universalidade e a antiguidade do envolvimento humano com histórias. Jean Senhorinho, doutor em filosofia, observa que a narrativa está presente em todos os lugares e desde tempos imemoriais. Essa característica intrínseca pode ter sido crucial para o desenvolvimento da cooperação em larga escala, conforme hipóteses como a do antropólogo britânico Robin Dunbar.
A fofoca, uma forma rudimentar de narrativa, fortalece laços de confiança, enquanto mitos e lendas compartilham valores e normas que unem grupos inteiros. Um estudo de 2017 publicado na revista Nature reforça essa ideia ao mostrar que a contação de histórias entre a população caçadora-coletora Agta, nas Filipinas, estava associada a uma maior cooperação. As narrativas transmitiam princípios que regulavam o comportamento social e a colaboração.
Narrativas como Ferramenta Adaptativa
Pedro Dolabela Chagas, professor de teoria literária, destaca que as histórias permitem aos humanos lidar com a ansiedade inerente à consciência do futuro e à imprevisibilidade. A capacidade de imaginar cenários, inclusive os negativos, auxilia na orientação e tomada de decisões no presente. Embora as hipóteses evolutivas sejam baseadas em evidências antigas e sejam deduções, a persistência das narrativas sugere um benefício adaptativo.
Senhorinho acrescenta que as histórias contribuem para a formação da identidade social e a disseminação de valores comuns em um grupo. Além disso, funcionam como um mecanismo de equilíbrio psicológico, ajudando os indivíduos a processar tensões entre seus desejos e a realidade, promovendo um bem-estar emocional.
Apesar de sua importância, o surgimento das histórias como uma adaptação natural é debatido. Senhorinho sugere que a habilidade narrativa pode ter emergido do desenvolvimento da linguagem, imaginação e capacidade de representação, tornando-se adaptativa por suas consequências benéficas, e não como uma causa direta de sobrevivência.
A Abundância de Histórias na Era Moderna
Chagas observa uma “abundância” de narrativas na sociedade contemporânea, com a televisão sendo uma “máquina de histórias”. Em contraste, vidas mais focadas na subsistência tendem a ter menos espaço para a contação de histórias. Essa proliferação narrativa é vista como parte de uma “aceleração cultural”, impulsionada pelo surgimento do romance no século XVIII, que individualizou personagens e aumentou a produção ficcional para atender a nichos de público cada vez mais diversos.
A pesquisa científica moderna tem explorado os efeitos neurológicos da contação de histórias. Um estudo de 2024 revelou que, durante a narrativa, ocorre um alinhamento cerebral entre o contador e os ouvintes. Quanto maior esse espelhamento neural, mais coesos os ouvintes se tornam, comparado a um sistema de comunicação sem fio, segundo Uri Hasson, da Universidade de Princeton. Outra pesquisa, de 2021, indicou que pessoas lembram e compreendem melhor histórias do que textos expositivos, devido à facilitação na atribuição de significados.
Para indivíduos neurodivergentes, a dificuldade com o pensamento narrativo pode gerar ansiedade social, pois essa habilidade é crucial para avaliar cenários e planejar ações. Projetos como o desenvolvido pela doutoranda Lia Constantino Criscoullo, da UFMG, buscam auxiliar crianças neurodivergentes a construir significados através da formulação de suas próprias narrativas, transformadas em material visual com inteligência artificial, visando ampliar seu repertório para interpretar experiências e situações.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Nature e estudos acadêmicos recentes.
