O ambiente de trabalho remoto, que se consolidou após a pandemia de Covid-19, tem revelado aspectos surpreendentes sobre as relações interpessoais e a colaboração entre colegas. Longe do ambiente formal do escritório, as interrupções domésticas, como a presença de crianças ou ruídos de obras, tornaram-se parte da rotina de videoconferências, mas, em vez de afastar as pessoas, essa exposição à vida pessoal parece ter fortalecido os laços profissionais.
Um estudo conduzido por uma pesquisadora da área de gestão acompanhou funcionários de uma empresa de serviços profissionais durante a transição para o modelo remoto, que se intensificou até 2024. Com base em 275 entrevistas e cerca de 330 horas de observação, a pesquisa contrariou a expectativa inicial de que a ausência física no escritório enfraqueceria os vínculos sociais. Os resultados, que serão publicados na revista científica Organization Science, indicam um aprofundamento nas relações e um aumento da segurança psicológica entre os colaboradores.
Antes da mudança, as interações no escritório eram predominantemente focadas no trabalho, com os funcionários relutantes em compartilhar aspectos de suas vidas pessoais por receio de que isso pudesse prejudicar sua imagem profissional. Relatos como o de Patrick, que temia revelar não poder trabalhar até mais tarde para ajudar a mãe, ou Tamara, que se sentia pressionada a aparentar estar bem mesmo exausta com dois filhos pequenos, ilustram essa barreira. A pesquisa foi realizada com base em dados coletados por The Conversation.
Conhecendo melhor os colegas através das telas
O trabalho remoto, paradoxalmente, permitiu que os colegas se conhecessem em um nível mais profundo. As inevitáveis interrupções domésticas, como gritos de crianças, a passagem de animais de estimação em frente às câmeras ou a chegada de cônjuges, passaram a ser vistas como janelas para a vida privada dos colegas. Essa exposição mútua, que se estendeu ao compartilhamento de fotos de filhos, animais e refeições em canais de comunicação da equipe, resultou em uma aproximação e em um conhecimento mais rápido e íntimo entre as pessoas, mesmo entre aquelas que já se conheciam há anos.
Aumento da segurança psicológica e colaboração
A pesquisa também apontou para um aumento significativo da segurança psicológica, definida como a confiança para correr riscos interpessoais no trabalho sem medo de avaliações negativas. Com o trabalho remoto, os funcionários se sentiram mais à vontade para discutir a interseção entre vida pessoal e profissional, compartilhando dificuldades e buscando apoio. Exemplos como o de Leah, que pôde revelar que o fim de um relacionamento a afetava emocionalmente, e Brooke, que se prontificou a assumir tarefas de um colega cujo pai estava doente, demonstram essa nova dinâmica.
Essa colaboração mais próxima, impulsionada pela maior abertura e compreensão mútua, não prejudicou a produtividade. Pelo contrário, funcionários relataram que o compartilhamento de detalhes da vida pessoal ajudou a trabalhar de forma mais eficiente. Os benefícios foram observados em diferentes perfis de trabalhadores, independentemente de idade, configuração familiar ou gênero, e criaram um ciclo virtuoso onde o compartilhamento aumentava o conhecimento mútuo, que, por sua vez, reforçava a segurança psicológica.
As conclusões do estudo sugerem que o trabalho remoto pode ser uma oportunidade valiosa para empregadores e funcionários. Em vez de vê-lo como um obstáculo aos laços sociais, as empresas podem encará-lo como um catalisador para o crescimento pessoal e o fortalecimento das relações de trabalho, promovendo um ambiente mais humano e colaborativo.
