Santa Catarina se destaca no cenário nacional do varejo
Em um momento de turbulência para o setor varejista brasileiro, com casos como a recuperação judicial do Grupo Casas Bahia, o estado de Santa Catarina apresenta um quadro notavelmente diferente. Treze empresas varejistas catarinenses ultrapassaram a marca de R$ 1 bilhão em vendas em 2025, e dez delas registraram aumento de faturamento em relação ao ano anterior, segundo o Ranking TOP 300 do Varejo Brasileiro, elaborado pelo Instituto Retail Think Tank (IRTT). Três dessas empresas apresentaram um crescimento significativamente superior à média das maiores companhias do país.
A Havan lidera o grupo de destaque em Santa Catarina, figurando na 14ª posição nacional com R$ 18,3 bilhões em vendas e um crescimento de 16%. Em seguida, o Grupo Pereira, controlador das redes Fort Atacadista e Comper, alcançou a 16ª colocação com R$ 17,5 bilhões e alta de 14%. O Grupo Koch, responsável pelas bandeiras Komprão e SuperKoch, situou-se na 21ª posição, com R$ 12,9 bilhões e um expressivo aumento de 25% em seu faturamento. Comparativamente, o Grupo Koch cresceu quase três vezes mais que a média nacional de 8,6% entre as 227 empresas com dados comparáveis no ranking.
O desempenho positivo não se restringe aos líderes. Oito das 13 empresas catarinenses bilionárias figuram entre as 100 maiores varejistas do Brasil. A Koerich, especializada em móveis e eletrodomésticos, registrou a maior expansão do grupo, com um salto de 36% em suas vendas, atingindo R$ 1,5 bilhão. Outras redes como Giassi (10%), Angeloni (2%), Passarela Supermercados (15%), Mundial Mix (11%), Studio Z (13%) e Rede Top (16%) também apresentaram crescimento. A Portobello Shop manteve seu faturamento estável, enquanto a Clamed, dona da Drogaria Catarinense, não dispunha de dados comparativos. A Cassol Centerlar, do setor de materiais de construção, foi a única a registrar queda, de 5%, totalizando R$ 1,03 bilhão.
As informações foram compiladas a partir de dados do Instituto Retail Think Tank (IRTT), Monitor RGF-BIZDOC, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina e declarações de executivos do setor.
Fatores que impulsionam o varejo catarinense
O economista Daniel da Cunha, professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), aponta três pilares principais para explicar o desempenho superior de Santa Catarina em relação ao restante do país. O primeiro é a expressiva expansão demográfica no litoral do estado, que fomenta o crescimento orgânico do modelo de atacarejo. Entre 2010 e 2022, a população catarinense cresceu 1,14% ao ano, mais que o dobro da média nacional (0,52%), concentrando-se nas regiões litorâneas e no Vale do Itajaí, áreas onde o atacarejo tem se fortalecido.
O segundo fator é o pleno emprego e uma distribuição de renda menos desigual no estado. A renda média em Santa Catarina é cerca de 20% superior à média nacional, permitindo aos consumidores adquirir uma gama mais ampla de produtos. Essa situação econômica favorável se reflete no comércio varejista catarinense, que registrou um crescimento de 5,9% nas vendas no último ano, contra 1,6% da média nacional, segundo o IBGE. Esse ritmo de crescimento tem se intensificado nos últimos três anos.
O terceiro motivo apontado por Cunha é o processo de fusões e aquisições de varejistas de médio porte por grandes redes. Um exemplo notório foi a aquisição da rede de supermercados Schmit pelo Grupo Pereira em 2025, aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Essa operação adicionou sete lojas e um centro de distribuição ao Grupo Pereira, expandindo sua presença em novas cidades e consolidando sua posição no mercado catarinense.
Segmentos em alta e em baixa
A demanda no varejo catarinense não cresceu uniformemente entre os setores. Enquanto o segmento alimentar, representado por redes como Pereira, Koch, Giassi e Angeloni, apresentou alta de 7,4% nas vendas de hipermercados e supermercados, outros setores enfrentaram retração. As vendas de eletrodomésticos caíram 4,3% e as de móveis, 3,5%, segundo dados do IBGE. Essa dinâmica é explicada pelo encarecimento do crédito, que leva as famílias a priorizarem o consumo essencial e adiarem compras de bens duráveis.
Além do impacto dos juros, setores como eletrodomésticos e moda sofrem com a pressão das vendas online e a concorrência internacional. O setor de móveis, em particular, foi afetado pela tarifação de importação dos EUA, e a construção civil mostra sinais de desaceleração após um ciclo de forte expansão, especialmente no litoral norte.
O caso Havan: financiamento próprio e solidez financeira
A Havan se destaca como uma exceção ao apresentar um crescimento de 16% em um ano de crédito caro, vendendo produtos que geralmente são comprados a prazo. Luciano Hang, proprietário da rede, atribui esse sucesso à estratégia de financiamento próprio. Cerca de 50% das vendas da Havan são realizadas por meio do cartão da própria rede, o que a torna menos dependente do crédito bancário. Além disso, a empresa opera com baixo endividamento bancário, o que lhe confere maior tranquilidade em um cenário econômico desafiador.
Hang também ressalta que a Havan investiu em aprimoramento operacional nos anos anteriores, com uma abertura controlada de novas lojas. A rede planeja expandir sua presença nacional e reforçar sua estrutura, com o objetivo de se tornar a melhor empresa do varejo brasileiro, focando em rentabilidade e solidez, e não apenas em tamanho.
Desafios futuros e o impacto da concorrência internacional
A expansão do varejo catarinense, embora robusta, pode encontrar limites em médio prazo. O economista Daniel da Cunha alerta para a saturação de áreas já densamente povoadas, onde a capacidade de expansão demográfica se torna mais restrita. Além disso, a economia catarinense tem dado sinais de desaceleração, com quedas no Índice de Atividade Econômica e no comércio varejista ampliado em julho de 2026.
Luciano Hang expressa grande preocupação com a concorrência das plataformas estrangeiras, criticando o que considera protecionismo ao contrário, que prejudica a indústria e o varejo nacionais. A isenção de impostos para compras internacionais de até US$ 50, implementada em maio de 2026, agrava essa situação, segundo ele. A análise de Cunha corrobora essa preocupação, indicando que a condição dos juros é nacional e que, mesmo em estados com renda mais elevada como Santa Catarina, o custo de vida também é maior, o que pode influenciar o futuro do varejo estadual nos próximos anos.
