Avanço da direita na política feminina brasileira
A última eleição legislativa marcou um avanço significativo para a representação feminina no campo político da direita. Pela primeira vez desde 2014, a direita se tornou o bloco que mais elegeu senadoras, superando a esquerda e o centro. Além disso, a direita é a única força política com candidatas disputando o segundo turno para governos estaduais em diversas regiões do país. Em contraste, a esquerda não emplacou nenhuma mulher na reta final pela disputa dos executivos estaduais, um cenário distinto de eleições anteriores, como em 2022, quando a única governadora eleita no primeiro turno foi Fátima Bezerra (PT).
A cientista política Malu Gatto, doutora pela Universidade de Oxford, atribui essa ascensão a uma estratégia política bem definida, centrada na figura da ex-primeira-dama e senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL). Gatto destaca que Michelle Bolsonaro tem sido uma voz ativa na promoção da participação feminina na política, inclusive atuando como cabo eleitoral para candidatas do seu partido e de legendas aliadas. Sua própria eleição como senadora pelo Distrito Federal é vista como um símbolo dessa estratégia.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e levantamentos jornalísticos especializados.
O Domínio da Direita no Senado e a Busca por Executivos Estaduais
No Senado, o Partido Liberal (PL) se destacou, elegendo não apenas Michelle Bolsonaro, mas também Bia Kicis (DF) e Caroline De Toni (SC). Outras senadoras eleitas pela direita incluem Gracinha Caiado (União-GO) e Mara Rocha (Republicanos-AC). Ao todo, cinco senadoras eleitas são ligadas à direita, superando as quatro eleitas pela esquerda e as três pelo centro. Este é o maior número de senadoras eleitas por partidos de direita em toda a série histórica iniciada em 2014 e marca a terceira eleição consecutiva em que a direita supera a esquerda nesse segmento.
Nos estados, a força da direita se manifesta na disputa pelos governos. Quatro mulheres disputam o segundo turno em 25 de outubro: Celina Leão (PP) no Distrito Federal, Mailza Assis (PP) no Acre, Professora Maria do Carmo (PL) no Amazonas e Professora Dorinha (União) no Tocantins. A única governadora eleita no primeiro turno foi Raquel Lyra (PSD), de um partido declarado de centro, evidenciando a predominância de candidatas de direita na disputa pelo poder executivo estadual.
A Estratégia do PL e o Crescimento na Câmara dos Deputados
O crescimento da representação feminina na direita não se restringe ao Senado. Na Câmara dos Deputados, a direita viu um salto expressivo, passando de 11 deputadas em 2014 para 44 em 2026. O PL, isoladamente, chegou perto de igualar o número de deputadas eleitas pelo PT, partido historicamente com maior bancada feminina. Malu Gatto ressalta a diferença entre números absolutos e o peso proporcional das mulheres dentro das bancadas: enquanto o PT elegeu 36% de mulheres, o PL ficou em 18%, mas em números absolutos, a diferença é pequena, com 22 deputadas do PL contra 25 do PT.
A especialista aponta que a estratégia do PL em priorizar candidaturas femininas remonta a uma necessidade identificada desde 2018, quando eleitoras demonstravam menos propensão a declarar voto em Jair Bolsonaro. O partido buscou atrair o eleitorado feminino e reduzir resistências, fortalecendo a presença de mulheres em suas candidaturas e promovendo a figura de Michelle Bolsonaro. Essa tática, segundo Gatto, espelha movimentos observados em partidos de direita na Europa, que aumentam a participação feminina para conquistar eleitoras em dificuldades de atrair esse segmento.
Um fator adicional que pode ter beneficiado as candidaturas femininas em 2026 foi o escândalo do Banco Master, que recolocou a corrupção no centro do debate político. A pesquisadora explica que mulheres são frequentemente vistas como um contraponto à corrupção, o que cria janelas de oportunidade para que partidos priorizem suas candidaturas, visando retorno eleitoral.
