Origem dos animais pode ser até 200 milhões de anos mais antiga, sugere estudo

Origem dos animais pode ser até 200 milhões de anos mais antiga, sugere estudo

Um enigma na história da vida A origem dos animais, um dos grandes mistérios da biologia evolutiva, pode ter ocorrido até 200 milhões de anos antes do que se estimava. Uma equipe científica, após examinar organismos microscópicos em depósitos fósseis na Mongólia, propõe que o reino animal tenha emergido durante o período Neoproterozoico, entre 800 […]

Resumo

Um enigma na história da vida

A origem dos animais, um dos grandes mistérios da biologia evolutiva, pode ter ocorrido até 200 milhões de anos antes do que se estimava. Uma equipe científica, após examinar organismos microscópicos em depósitos fósseis na Mongólia, propõe que o reino animal tenha emergido durante o período Neoproterozoico, entre 800 e 700 milhões de anos atrás, antes das glaciações mais severas do planeta. A conclusão, publicada na revista Science Advances, reabre o debate sobre a cronologia da vida complexa na Terra.

Tradicionalmente, a ciência considerava que os animais surgiram de forma relativamente abrupta no registro fóssil pouco antes do período Cambriano, há entre 539 e 487 milhões de anos. Essa visão era fortemente influenciada por sítios como a biota de Weng’an, na China, datada de cerca de 590 milhões de anos. Apesar de preservar organismos microscópicos com detalhes excepcionais, nenhum deles foi identificado como animal, levando à suposição de que os primeiros animais teriam surgido posteriormente.

A lógica era que, se animais já existissem na época de Weng’an, um depósito de tão alta qualidade necessariamente teria registrado seus fósseis. No entanto, descobertas recentes na biota de Kheseen, na Mongólia, um sítio fossilífero cerca de 40 milhões de anos mais jovem que Weng’an, questionam essa premissa. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Science Advances.

Novas evidências desafiam a cronologia

O estudo analisou mais de uma centena de amostras da biota de Kheseen. Surpreendentemente, assim como em Weng’an, nenhum fóssil de animal foi encontrado neste sítio. Contudo, registros fósseis de outras regiões, como o sul da China e a Namíbia, confirmam a existência de animais na Terra durante o período de Kheseen. Isso sugere que a ausência de fósseis de animais em um sítio de preservação excepcional não significa que eles não existiam.

“A biota de Kheseen refuta o argumento de que os excepcionais microfósseis de Weng’an implicam que teríamos encontrado fósseis de animais naquele depósito caso eles existissem na época”, afirmou o autor Ross Anderson. A explicação reside na possibilidade de que os animais possam ter habitado ambientes diferentes, cujas condições químicas não favoreceram a fossilização, mesmo em locais com excelente preservação.

“Os microfósseis de Kheseen estão igualmente bem preservados, mas ainda assim não aparecem fósseis de animais, apesar de sabermos que eles existiam naquele momento”, acrescentou Anderson. Essa constatação leva os pesquisadores a reconsiderar o limite temporal para a origem animal.

A técnica do relógio molecular e o contexto geológico

Ao afastar a hipótese de que Weng’an representava o limite máximo para a origem animal, os cientistas voltaram-se para depósitos fossilíferos ainda mais antigos, datados entre 850 e 730 milhões de anos, encontrados na Noruega, Austrália e Estados Unidos. Embora estes locais também não apresentem fósseis de animais, a análise química das rochas indica que elas possuíam a capacidade de preservá-los, caso estivessem presentes.

Com essas novas referências temporais, a equipe aplicou a técnica do relógio molecular. Este método compara as diferenças genéticas entre espécies atuais para estimar a idade de seus ancestrais comuns, correlacionando-as com a idade de fósseis conhecidos. O resultado foi uma estimativa que retrocede em cerca de 200 milhões de anos a origem do reino animal, situando-a entre 800 e 700 milhões de anos atrás, bem antes dos primeiros fósseis corporais confirmados.

Essa nova hipótese é corroborada pela presença de biomarcadores químicos em rochas antigas, interpretados como potenciais evidências de esponjas primitivas que viveram há pelo menos 650 milhões de anos. Esses organismos eram minúsculos, de corpo mole e com baixa probabilidade de fossilização, em contraste com a fauna posterior que desenvolveu estruturas mais resistentes como conchas e ossos.

Implicações para a evolução

A nova datação para a origem dos animais sugere que os estágios iniciais de sua evolução coincidiram com as glaciações globais do período Criogeniano, iniciado há cerca de 720 milhões de anos. Esse período, conhecido como “Terra Bola de Neve”, viu grande parte do planeta coberta por gelo.

“Os resultados ajudam a esclarecer o que sabemos sobre os ritmos da evolução, o momento em que surgem as inovações biológicas e os processos que levam à diversificação dos animais”, afirmou o coautor Derek Briggs, professor da Universidade de Yale. Contudo, os cientistas ressaltam que o estudo não oferece uma prova definitiva da existência de animais há 800 milhões de anos. A pesquisa demonstra, principalmente, que a ausência de fósseis em sítios específicos não é suficiente para descartar a possibilidade de sua existência em épocas mais remotas, abrindo caminho para futuras descobertas baseadas em análises moleculares e geológicas mais aprofundadas.

“Até que a evidência esteja disponível, a data exata de surgimento do reino animal continua incerta”, concluiu Anderson.

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