Cientistas recriam e destroem papiros para desvendar segredos da Biblioteca de Herculano
Cientistas recriam e destroem papiros para desvendar segredos da Biblioteca de Herculano

Cientistas recriam e destroem papiros para desvendar segredos da Biblioteca de Herculano

Papiros carbonizados pela erupção do Vesúvio são alvo de nova técnica científica Pesquisadores criaram e intencionalmente queimaram rolos de papiro em laboratório para simular as condições dos manuscritos da antiga cidade romana de Herculano, sepultada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. O objetivo é aprimorar métodos de leitura desses textos milenares sem a necessidade […]

Resumo

Papiros carbonizados pela erupção do Vesúvio são alvo de nova técnica científica

Pesquisadores criaram e intencionalmente queimaram rolos de papiro em laboratório para simular as condições dos manuscritos da antiga cidade romana de Herculano, sepultada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. O objetivo é aprimorar métodos de leitura desses textos milenares sem a necessidade de abri-los, uma tarefa delicada devido à extrema fragilidade dos originais.

A biblioteca de Herculano representa o maior acervo sobrevivente do mundo greco-romano, com centenas de obras, muitas delas de autores epicuristas, ainda guardadas, em sua maioria, na Biblioteca Nacional de Nápoles. Carbonizados e retorcidos, os papiros são tão frágeis que qualquer tentativa de desenrolá-los pode resultar em sua desintegração.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista científica PLOS One e por declarações de pesquisadores envolvidos no estudo.

A chave do chumbo para a leitura de textos antigos

A inovação reside na utilização de tintas com diferentes concentrações de chumbo em papiros experimentais. A equipe descobriu que o chumbo, ao ser exposto a raios-X, gera um contraste significativo que destaca o contorno das letras. Essa descoberta é crucial porque, após a carbonização, a tinta à base de carbono e o próprio papiro tornam-se quase indistinguíveis em exames convencionais, dificultando a visualização das inscrições.

Em um estudo publicado na revista científica PLOS One, Douglas Seiler, da Universidade da Califórnia em Berkeley, utilizou papiro egípcio e tintas com teores variados de chumbo. Trechos de obras modernas, como “Star Wars” e a Bíblia, foram escritos nesses papiros, que em seguida foram queimados em fornalha. As imagens de raios-X revelaram que as letras com chumbo se tornaram visíveis mesmo nas concentrações mais baixas testadas, de 25 microgramas por centímetro quadrado.

A primeira indicação da presença de chumbo em papiros de Herculano surgiu em 2016, em dois fragmentos. Ainda não se sabe a extensão do uso do chumbo nas tintas antigas nem o motivo exato de sua inclusão, que pode ter sido como pigmento ou auxiliar na secagem.

Tecnologia de triagem e leitura virtual

Além da técnica de imagem, o estudo propõe o uso da fluorescência de raios-X (XRF) como um método de triagem. Um aparelho portátil pode detectar a presença de chumbo sem contato físico com o papiro, permitindo identificar quais rolos são mais promissores para uma análise detalhada. Esses exemplares poderiam então ser submetidos a tomografias de alta resolução.

“Se houver chumbo nos rolos, muito provavelmente conseguiremos lê-los”, afirmou Seiler, referindo-se aos papiros originais. Embora o método tenha sido demonstrado em laboratório com papiros modernos, a expectativa é que ele seja aplicado aos originais de Herculano assim que houver autorização para acesso.

Os papiros queimados experimentalmente também funcionam como um gabarito, permitindo que os pesquisadores verifiquem a precisão dos algoritmos na reconstrução de textos conhecidos. A visualização imediata do texto nas imagens de raios-X foi descrita como “incrível” pelos cientistas.

O Vesuvius Challenge e o futuro da decifração

A leitura completa dos papiros de Herculano envolve múltiplas etapas, incluindo tomografias tridimensionais, o desenrolamento virtual das folhas por meio de programas de computador e o uso de inteligência artificial para identificar a tinta e reconstruir o texto.

Esses processos estão sendo aprimorados pela iniciativa Vesuvius Challenge, que em junho conseguiu ler integralmente um rolo fechado, o PHerc. 1667, recuperando cerca de 1,4 metro de texto em grego de um tratado de ética. O projeto também funciona como uma competição, incentivando o desenvolvimento de novas ferramentas e técnicas, e já premiou equipes com avanços significativos.

O físico Odemir Martinez Bruno, da USP, um dos participantes premiados, destaca a importância da qualidade das imagens para o sucesso da inteligência artificial na identificação da tinta e do papiro. Ele também aponta a necessidade de baratear os exames para permitir a análise de um número maior de rolos.

Potencial de descobertas e o legado epicurista

Herculano ainda pode guardar outros tesouros. Escavações anteriores na Villa dos Papiros revelaram cerca de 1.800 fragmentos, equivalentes a aproximadamente 800 volumes. Há especulações de que novas escavações possam desenterrar obras perdidas de Aristóteles.

A maioria dos textos decifrados até agora em Herculano está ligada ao epicurismo. A escassez de obras completas desse filósofo, atribuído a cerca de 300 rolos, contrasta com a vasta obra de Platão e Aristóteles. Novas técnicas de leitura podem preencher lacunas importantes sobre o epicurismo, doutrina que coloca o prazer no centro da ética, embora não haja garantia de que essas descobertas se concretizem, dependendo dos resultados das pesquisas em andamento.

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