Agência Nacional de Vigilância Sanitária investiga possíveis efeitos adversos graves associados a popularizados medicamentos injetáveis para controle de peso.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) abriu investigação para apurar a relação entre o uso de canetas emagrecedoras e 13 notificações de Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior Não Arterítica (Noiana). Esta condição é um evento adverso raro de medicamentos que pode levar à perda súbita e permanente da visão.
As notificações envolvem medicamentos como Ozempic (cinco casos), Wegovy (três casos), Wegovy FlexTouch (dois casos), Rybelsus (dois casos) e Mounjaro (um caso). Ozempic, Wegovy e Rybelsus são produzidos pela Novo Nordisk e contêm semaglutida como princípio ativo. Já o Mounjaro é fabricado pela Eli Lilly e tem tirzepatida em sua composição. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Anvisa.
Entenda a Noiana e seus riscos
A Noiana é causada pela redução do fluxo sanguíneo na parte frontal do nervo óptico, que funciona como um cabo de transmissão de informações visuais da retina para o cérebro. Essa interrupção no suprimento de oxigênio e nutrientes pode danificar as fibras nervosas, resultando em perda de visão definitiva. O oftalmologista Gustavo Bonfadini explica que o quadro pode se manifestar com a perda de uma parte do campo visual, muitas vezes percebida ao acordar, sem que haja dor.
Fatores de risco para o desenvolvimento da Noiana incluem idade acima de 50 anos, hipertensão, diabetes, colesterol elevado, doenças cardiovasculares, tabagismo e apneia obstrutiva do sono. O oftalmologista ressalta que a doença é multifatorial.
Posicionamento das farmacêuticas e da Anvisa
A Novo Nordisk, fabricante de Ozempic e Wegovy, declarou que a segurança dos pacientes é prioridade e que acompanha continuamente os relatos de eventos adversos. A empresa afirma que o perfil de segurança da semaglutida é respaldado por estudos clínicos e experiência global, e que as evidências disponíveis não confirmam uma relação causal entre os agonistas de GLP-1 (princípio ativo de Ozempic e Wegovy) e a Noiana. A farmacêutica citou uma análise de ensaios clínicos com mais de 83 mil pacientes-ano, onde foram registrados poucos casos de Noiana confirmados, sem aumento de incidência nos grupos tratados com semaglutida.
A Eli Lilly, por sua vez, informou que monitora, avalia e reporta ativamente às autoridades regulatórias as informações de segurança de seus medicamentos, orientando que pacientes com efeitos colaterais conversem com seus médicos.
A Anvisa enfatiza que as notificações de Noiana envolvendo as canetas não significam que os medicamentos tenham causado a doença. A agência ressalta que a avaliação depende da qualidade e completude das informações clínicas de cada caso, incluindo diagnóstico, temporalidade, condições do paciente e possíveis causas alternativas.
Recomendações e contexto médico
Em junho de 2025, a Anvisa emitiu um alerta sobre a Noiana como evento adverso raro associado à semaglutida, determinando sua inclusão nas bulas. A recomendação é que pacientes procurem atendimento médico imediato em caso de perda súbita ou piora rápida da visão.
Clayton Macedo, professor da Unifesp e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, considera a associação entre agonistas de GLP-1 e Noiana extremamente rara, embora haja um sinal de associação. Ele pondera que ainda é difícil estabelecer uma relação direta de causa e efeito. Um estudo publicado na revista Diabetes Care indicou uma incidência de Noiana de 18 casos por 100 mil pessoas-ano em usuários de GLP-1, contra 7,2 casos em usuários de outra classe de medicamentos para diabetes.
Macedo sugere que pacientes com diabetes e aqueles com grande redução de hemoglobina glicada podem ter um risco aumentado, e que a melhora súbita do controle da glicose pode ser uma hipótese para o mecanismo. No entanto, ele não considera a raridade da Noiana um motivo para desaconselhar o uso geral das canetas para pacientes com diabetes e obesidade, defendendo que a decisão deve ponderar riscos e benefícios. Para uso estético em pessoas sem essas condições, ele desaconselha.
