A recuperação de uma espécie marinha é um testemunho do poder da ciência e da persistência na conservação. Em poucas décadas, a baleia-jubarte, que chegou à beira da extinção pela caça predatória, não só retornou em número expressivo à costa brasileira, como se tornou um motor para políticas ambientais e avanços científicos.
Sob o céu azul de agosto, o balanço das ondas no extremo sul da Bahia anuncia a presença de gigantes marinhos. Em uma expedição recente ao Parque Nacional Marinho de Abrolhos, pesquisadores do Instituto Baleia Jubarte (IBJ) documentaram a aproximação de 59 indivíduos, incluindo filhotes, um número que contrasta drasticamente com o passado sombrio da espécie. A caça, proibida mundialmente em 1986, havia reduzido a população brasileira a poucas centenas. Hoje, o censo de 2022 aponta para quase 35 mil jubartes ao longo da costa nacional, um feito notável em menos de 40 anos.
O trabalho de monitoramento, que dura mais de três décadas, é meticuloso. Cada expedição envolve horas de navegação, observação atenta e o registro de dados cruciais: localização, profundidade, comportamento, tamanho dos grupos e, fundamentalmente, a identificação individual através de fotografias das caudas. Cada padrão único funciona como uma impressão digital, permitindo o cadastramento em plataformas globais como a Happy Whale, que já identificou mais de 8.300 indivíduos a partir de mais de 14.700 fotos coletadas pelo IBJ.
Esses dados científicos não ficam restritos aos laboratórios. Eles embasaram a retirada da baleia-jubarte da lista de espécies ameaçadas em 2014 e continuam a guiar políticas públicas essenciais. Normas para o turismo de observação de baleias, por exemplo, foram criadas com base no conhecimento científico. Além disso, as informações sobre as rotas migratórias e áreas de concentração dos animais são cruciais para mitigar riscos. Em portos como o de São Sebastião (SP) e Vitória (ES), rotas de navios foram redefinidas e limites de velocidade impostos para reduzir o risco de colisões. Da mesma forma, áreas de restrição à pesquisa sísmica, técnica barulhenta utilizada pela indústria de óleo e gás, foram estabelecidas em zonas de grande atividade das jubartes.
Novos Horizontes da Pesquisa
A longevidade do projeto e a recuperação da espécie abriram novas e empolgantes frentes de pesquisa. Cientistas mais jovens, como Nádia Freitas e Laura Aguilar, utilizam tecnologias como drones para analisar a condição corporal e o peso dos animais, buscando correlacionar esses dados com fatores ambientais e a qualidade da alimentação das baleias na temporada anterior. A coleta de amostras genéticas, em uma operação que se assemilha a cenas de ação, permite estudos sobre fisiologia, como os níveis de cortisol (hormônio do estresse), e até mesmo sobre o impacto das mudanças climáticas na Antártida, através da análise dos ácidos graxos coletados.
O sucesso do IBJ, fundado em 1988 por Enrico Marcovaldi e Márcia Engel, é também resultado de parcerias de longo prazo. O patrocínio contínuo da Petrobras, que já investiu milhões em projetos socioambientais ligados ao oceano, ilustra como a colaboração entre a iniciativa privada e a ciência pode gerar resultados concretos para a conservação. A empresa, por exemplo, adaptou as rotas de seus terminais para minimizar o impacto na migração das baleias, demonstrando uma integração entre atividades industriais e a preservação ambiental.
O desafio agora, segundo Eduardo Camargo, diretor-presidente do IBJ, é gerenciar a convivência entre uma população robusta de 35 mil baleias e as crescentes atividades humanas no mar. A ciência, que foi fundamental para trazer as jubartes de volta, continua sendo a bússola para garantir um futuro onde humanos e esses magníficos cetáceos possam coexistir harmoniosamente nos oceanos.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Instituto Baleia Jubarte e reportagens jornalísticas.
