Barreiras geográficas e emocionais dificultam acesso ao exame preventivo do câncer de colo de útero
O caminho para a prevenção do câncer de colo de útero pode ser longo e árduo para muitas mulheres brasileiras. No Amazonas, por exemplo, o deslocamento até uma Unidade Básica de Saúde (UBS) pode levar horas, muitas vezes exigindo o uso de barcos, além de gastos com combustível e a necessidade de quem cuide dos filhos. Essa realidade, que expõe desafios logísticos significativos, é apenas uma faceta de um problema mais amplo que afeta mulheres em todo o país, levando-as a adiar ou sequer realizar o exame preventivo, mesmo quando se encontram na faixa etária de 25 a 64 anos, para a qual o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o rastreamento.
Para combater essa evasão, pesquisadores e gestores de saúde buscam incessantemente novas estratégias para facilitar o acesso aos exames. Tradicionalmente, o Papanicolau tem sido o método principal de rastreamento desde os anos 1980, detectando lesões causadas pelo HPV (papilomavírus humano), agente responsável pela vasta maioria dos casos de câncer cervical. No entanto, a partir de 2025, uma nova diretriz do Ministério da Saúde passou a priorizar o teste de DNA-HPV oncogênico como método preferencial, visando uma substituição gradual do Papanicolau.
O teste de DNA-HPV se destaca por sua alta sensibilidade, capaz de identificar os tipos de HPV de alto risco antes mesmo que alterações celulares se desenvolvam, detectando a infecção em cerca de 97% dos casos, superando a eficácia do Papanicolau, que gira em torno de 70%. Um resultado negativo neste teste permite estender o intervalo para o próximo exame para cinco anos, otimizando o uso de recursos e o acompanhamento das pacientes. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Ministério da Saúde, Inca e estudos coordenados pela Universidade Estadual de Maringá.
Autocoleta e testes moleculares: novas fronteiras na prevenção
A nova diretriz abre espaço para a autocoleta vaginal, um método que elimina a necessidade da mulher se deslocar até uma UBS, simplificando significativamente o acesso ao exame. Essa abordagem é o cerne da Rede Previna-se, que congrega pesquisadores de diversas regiões do Brasil para estudar a eficácia do rastreamento do câncer do colo do útero por meio da autocoleta. No projeto, mulheres com histórico de falhas no rastreamento recebem kits de coleta e orientações de agentes comunitários de saúde.
O Amazonas, estado com a maior incidência de câncer cervical no Brasil, com 28,57 casos para cada 100 mil mulheres – o dobro da média nacional, segundo o Inca –, tem sido um campo de estudo importante. Pesquisas como a coordenada pela professora Márcia Consolaro, da Universidade Estadual de Maringá, que realizou um estudo local entre 2014 e 2016, demonstraram a maior adesão das mulheres à autocoleta em comparação com o Papanicolau. Esses estudos também revelaram os motivos que levam as mulheres a não realizarem o exame preventivo: o medo de um diagnóstico de câncer encabeça a lista, seguido pela vergonha do procedimento e o receio de serem atendidas por homens, além de fatores como a oposição do cônjuge e questões religiosas.
Sandra Palloso, enfermeira com mais de 30 anos de experiência na área, relata casos como o de uma mulher que deixou de fazer o preventivo por seis anos devido à vergonha de usar uma tornozeleira eletrônica. Essas barreiras emocionais e sociais sublinham a importância de métodos que ofereçam mais discrição e conforto.
Indaiatuba: um modelo de sucesso na implementação do DNA-HPV
Em Indaiatuba, São Paulo, o teste de DNA-HPV foi incorporado em um programa municipal pioneiro desde 2017, em parceria com a Unicamp. A iniciativa, que acompanha as mulheres desde a convocação até o tratamento, já testou mais de 20 mil mulheres, alcançando uma cobertura de quase 78% da população-alvo. O programa identificou centenas de lesões precursoras de alto grau e dezenas de casos de câncer, a maioria em estágio inicial.
O sucesso de Indaiatuba serviu de referência para a adoção nacional do teste de DNA-HPV. Atualmente, mais de 150 mil coletas já foram realizadas no país, e a meta é expandir o novo método para toda a rede pública até dezembro de 2026, com apenas alguns estados ainda utilizando o Papanicolau. A mudança no fluxo de atendimento é crucial: um resultado positivo de DNA-HPV não indica câncer, mas sim a necessidade de investigação adicional, que pode incluir Papanicolau, colposcopia e biópsia. A garantia de uma linha de cuidado completa para quem tem resultados positivos é essencial para a eficácia do rastreamento, conforme destaca Flávia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer.
A expectativa é que a antecipação dos diagnósticos proporcionada pelo novo método possa evitar aproximadamente 350 mortes mensais por câncer do colo do útero no Brasil. Julio Cesar Teixeira, ginecologista e coordenador de pesquisas sobre o tema, estima que o impacto na mortalidade comece a ser observado entre dois e três anos após a plena implantação do novo método. A ampliação do intervalo de cinco anos para o rastreamento após um resultado negativo também é vista como uma estratégia para direcionar recursos na busca ativa por mulheres que nunca realizaram o exame ou que estão há muito tempo sem fazê-lo, otimizando o alcance do sistema de saúde.
