A medula óssea, uma fábrica de sangue essencial para a vida, pode falhar em sua função devido a diversas doenças. Em muitos casos, o transplante de medula óssea surge como a única esperança de cura, um procedimento que depende da solidariedade de doadores voluntários. A data de 22 de setembro, Dia Mundial do Doador de Medula Óssea, reforça a necessidade de informação e engajamento da população neste ato de amor ao próximo.
A medula óssea, localizada no interior dos ossos, é responsável pela produção de todas as células sanguíneas: glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Quando esse tecido vital é acometido por doenças como leucemias, linfomas ou anemias graves, sua capacidade de produção pode ser comprometida, gerando células defeituosas ou insuficientes para as funções essenciais do corpo, como transporte de oxigênio, defesa contra infecções e coagulação.
Para reverter esse quadro, o transplante de medula óssea é a alternativa terapêutica. Existem duas modalidades: o autólogo, onde o próprio paciente doa suas células-tronco saudáveis antes de um tratamento mais agressivo, e o alogênico, que requer a doação de outra pessoa. Este último é fundamental para casos mais graves, como leucemias agudas e anemias aplásicas severas, e a busca por um doador compatível é um processo crucial.
A compatibilidade para o transplante alogênico é determinada por marcadores genéticos específicos, o HLA (Antígeno Leucocitário Humano). A primeira busca por um doador compatível se volta para familiares de primeiro grau do paciente, como irmãos, que possuem cerca de 25% de chance de apresentar o mesmo perfil genético. Caso não haja um parente compatível, a esperança se volta para o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome).
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Como se tornar um doador de medula óssea?
Para ser um doador de medula óssea, é necessário se cadastrar no Redome. O processo é simples e pode ser realizado em hemocentros e hemonúcleos habilitados em todo o país. Os endereços dos locais de cadastro estão disponíveis no site oficial do Redome. Os requisitos básicos são ter entre 18 e 35 anos e estar em bom estado geral de saúde. É importante notar que algumas condições de saúde, como HIV, hepatite, câncer, doenças autoimunes, diabetes, asma e ISTs, podem ser impeditivas para a doação, conforme detalhado nas diretrizes do Redome.
No momento do cadastro, o voluntário deve apresentar um documento com foto, preencher uma ficha, assinar um termo de consentimento e doar uma pequena amostra de sangue, cerca de 5 ml. Essa amostra será utilizada para a tipagem do HLA, que definirá a compatibilidade genética do doador.
O que acontece após o cadastro?
Os dados do doador ficam armazenados no cadastro do Redome até os 60 anos de idade, sendo continuamente comparados com os de pacientes que aguardam um transplante. É fundamental manter os dados de contato, como telefone, e-mail e endereço, sempre atualizados. A compatibilidade pode surgir a qualquer momento, e o Redome entrará em contato para confirmar a disponibilidade e o interesse do doador. Novos exames serão realizados para confirmar a compatibilidade e avaliar a saúde do voluntário.
A falta de atualização dos dados cadastrais é um dos principais entraves para o transplante. Estima-se que uma parcela significativa dos doadores chamados não é encontrada quando um paciente necessita da doação, o que reforça a importância de manter as informações em dia.
Como é feita a coleta das células?
Existem duas formas principais de coleta de medula óssea, que dependem da condição do paciente e da avaliação médica. A primeira é a aférese, um procedimento não cirúrgico. Nos dias que antecedem a coleta, o doador recebe uma medicação que estimula a produção de células-tronco, fazendo com que elas migrem para a corrente sanguínea. Durante a coleta, o sangue é retirado por um braço, passa por uma máquina que separa as células-tronco e retorna pelo outro braço. Esse processo dura algumas horas e pode causar efeitos colaterais temporários, como dores no corpo e sensação de gripe.
A segunda forma é a coleta direta da medula óssea, realizada no osso da bacia através de punções com agulhas específicas. Este procedimento é feito em centro cirúrgico, sob anestesia, e geralmente requer uma internação de cerca de 24 horas. A medula espinhal não é atingida. Após o procedimento, pode haver dor ou desconforto leve na região, que é controlado com analgésicos.
A doação compromete a saúde do doador?
Não. A medula óssea tem uma notável capacidade de regeneração. Em cerca de 15 dias, ela volta ao seu volume normal. O organismo repõe as células retiradas de forma semelhante a uma doação de sangue convencional, sem que o volume extraído cause qualquer prejuízo ao doador.
Quantas vezes é possível doar?
Embora não haja um limite numérico fixo, a maioria dos doadores realiza apenas uma doação, devido à baixa probabilidade de encontrar compatibilidade para um novo paciente. Uma segunda doação pode ocorrer para o mesmo paciente, caso ele necessite de um reforço no tratamento, com um intervalo mínimo de 12 meses entre os procedimentos.
Para onde vai a doação?
A medula óssea doada pode ser destinada a qualquer paciente no Brasil ou, em casos específicos, em outros países. O Redome possui um vasto cadastro e está conectado a bancos internacionais. A diversidade genética da população brasileira torna o registro nacional especialmente importante, pois perfis genéticos de grupos historicamente sub-representados, como negros, pardos e indígenas, podem ter maior dificuldade em encontrar um doador compatível. Ampliar a representatividade desses grupos no cadastro é fundamental para aumentar as chances de compatibilidade para todos os pacientes.
O doador pode conhecer o paciente?
Inicialmente, o processo de doação no Brasil é anônimo. Após seis meses, o doador pode solicitar um boletim sobre o estado de saúde do paciente. Com 12 meses, é possível enviar uma mensagem anônima. A quebra do anonimato e a possibilidade de encontro entre doador e receptor ocorrem após 18 meses, mediante autorização médica e concordância mútua. Para doações internacionais, as regras do país receptor se aplicam.
