Embraer celebra marco histórico e se posiciona como alternativa viável no cenário aeronáutico global.
A Embraer alcançou um feito notável no início de setembro, com a entrega do 2.000º E-Jet para a Azul Linhas Aéreas. A aeronave, um E195-E2, impulsionou a família de jatos da fabricante brasileira ao pódio das mais vendidas na aviação global, atrás apenas das aclamadas famílias A320 da Airbus e 737 da Boeing. Desde sua entrada em operação em 2004, os E-Jets se tornaram presença constante em mais de 90 companhias aéreas ao redor do mundo, transportando mais de 2,8 bilhões de passageiros em cerca de 60 países. O marco reforça a posição da Embraer como líder incontestável no segmento de jatos comerciais com capacidade para até 150 passageiros.
O bom desempenho da empresa sediada em São José dos Campos (SP) não passou despercebido pelo mercado internacional. A revista britânica The Economist associou o momento favorável da Embraer à crise de capacidade produtiva enfrentada por suas principais concorrentes, Airbus e Boeing. Contudo, a ascensão da fabricante brasileira também se depara com gargalos industriais que impactam seu ritmo de entregas.
Nova configuração de mercado favorece a Embraer
O crescimento da Embraer ocorre em um contexto de profunda reconfiguração no setor aeronáutico. A Boeing tem enfrentado uma série de crises, incluindo os acidentes envolvendo o 737 MAX em 2018 e 2019, enquanto a Airbus consolidou sua liderança com a família A320. Paralelamente, a pandemia da COVID-19 alterou as estratégias das companhias aéreas, que passaram a priorizar aeronaves menores e mais flexíveis diante da incerteza na demanda. Esse cenário beneficiou a Embraer, cuja família E-Jets superou o CRJ da Bombardier em número de aeronaves entregues.
A Embraer tem acumulado pedidos enquanto suas rivais enfrentam longas filas de espera. No início de 2021, o valor das ações da empresa brasileira experimentou uma valorização expressiva, superando o desempenho de Airbus e Boeing. As estimativas da própria Embraer apontam para um aumento nas entregas de 141 aeronaves em 2021 para 255 unidades até o final de 2026. A carteira de pedidos firmes (backlog) da companhia atingiu um recorde histórico de US$ 34,5 bilhões em julho, marcando o sétimo trimestre consecutivo de crescimento.
Embraer capitaliza em gargalos de produção e nichos de mercado
O principal impulsionador desse crescimento são as persistentes dificuldades na cadeia de fornecimento global, que afetam a produção de novas aeronaves pelas gigantes do setor. Enquanto as companhias aéreas aguardam de oito a dez anos para receber jatos de corredor único de grande porte encomendados à Airbus ou Boeing, a Embraer consegue entregar os jatos da família E2 em menos de dois anos. No mercado norte-americano, o E175 detém uma posição praticamente exclusiva na aviação regional, sendo o único jato de sua categoria em produção que atende às restrições impostas pelas cláusulas trabalhistas de pilotos de companhias aéreas americanas.
Além do segmento comercial, a Embraer tem demonstrado forte desempenho em outros nichos, como a aviação executiva e o mercado militar, impulsionado pelo cargueiro KC-390 Millennium. Na área de Defesa e Segurança, a carteira de pedidos alcançou US$ 6,1 bilhões, um aumento de 42% em relação ao segundo trimestre de 2025. A recente aquisição de duas unidades do KC-390 pela Colômbia marca o país como o 13º a selecionar o modelo, somando-se à venda firme de dez cargueiros para os Emirados Árabes Unidos, o maior contrato internacional para o modelo.
Expansão global e desafios futuros
A Índia surge como uma fronteira estratégica para os futuros negócios da Embraer. A companhia disputa o fornecimento de 60 a 80 unidades do KC-390 e avalia, em parceria com o grupo Adani, a introdução do E175 no mercado civil indiano, com a possibilidade de estabelecer uma linha de produção local para a família E-Jets. Para viabilizar tal investimento, a Embraer estipula um pedido mínimo garantido de pelo menos 200 aeronaves.
Outro vetor de crescimento potencial é a subsidiária Eve Air Mobility, focada em mobilidade urbana. O protótipo de eVTOL (aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical) da Eve realizou com sucesso seu primeiro voo com transição entre o vertical e o horizontal no início de agosto.
Apesar do cenário promissor, a Embraer enfrenta desafios significativos na cadeia de suprimentos, especialmente no fornecimento de motores. A capacidade instalada permite a montagem de 100 a 105 jatos comerciais por ano, mas atrasos, principalmente de motores, limitam as entregas a 80 ou 85 unidades em 2026. A escassez de componentes eletrônicos, peças forjadas e fundidas de alta temperatura, e a falta de mão de obra qualificada também impõem restrições ao ritmo de produção. A empresa ainda lida com cerca de 50 contratos legados de baixa margem, firmados durante a pandemia, o que levanta preocupações sobre a execução em detrimento da demanda.
Adicionalmente, a Embraer lida com o aumento dos custos de materiais e incertezas no cenário internacional, como a volatilidade nos preços do combustível de aviação e a necessidade de recorrer ao mercado financeiro para financiar vendas. O próximo grande desafio da empresa pode ser o desenvolvimento de um jato comercial de corredor único de maior porte, visando competir diretamente com as gigantes Airbus e Boeing, um projeto estimado em US$ 10 bilhões que exigiria parceiros estratégicos de peso.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Embraer, The Economist e análises de mercado de veículos como BTG Pactual e XP Investimentos.
