A escritora espanhola Rosa Montero, aos 75 anos, celebra a intensidade da vida após a menopausa e critica visões patriarcais sobre o envelhecimento feminino. Em entrevista, ela também aborda a ascensão de forças reacionárias no mundo.
A passagem do tempo, para a escritora espanhola Rosa Montero, não significa a perda do desejo ou a invisibilidade social. Aos 75 anos, Montero afirma que envelhecer intensifica a experiência de estar viva, descrevendo cada momento como pintado de “purpurina, de cores, de faíscas, de luzes”. Essa visão otimista sobre a maturidade feminina é um dos temas centrais de sua obra, incluindo o romance “A Carne”, lançado recentemente no Brasil pela editora Todavia.
Publicado originalmente há uma década, “A Carne” narra a história de Soledad, uma mulher de 60 anos que, após ser abandonada por um amante, contrata um gigolô. A personagem teme morrer sem ter experimentado o amor em sua plenitude. Na época do lançamento na Espanha, Montero foi surpreendida pela recepção de seu livro como um ato de “coragem” por abordar o desejo de uma mulher de 60 anos. Para ela, essa reação evidenciava um olhar patriarcal que enxerga a maturidade feminina como um período de declínio, especialmente após a perda da capacidade de gestar.
A escritora critica a forma como a menopausa é frequentemente “demonizada” pela sociedade. “É um discurso machista e falso porque, ao contrário, você se sente uma maravilha. Liberada de um monte de coisas”, declara Montero, referindo-se ao fim de dores como cólicas e enxaquecas, além da ausência do receio de engravidar. Ela define a menopausa como “uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida”.
O desejo feminino e a desconstrução de preconceitos
Montero relembra a surpresa diante de perguntas de entrevistadores homens que consideravam corajoso falar sobre o desejo de uma mulher de 60 anos. “Aquilo me deixou estupefata! Primeiro porque não era a minha intenção, e esse não era o tema do livro. Depois porque não me parecia corajoso falar do desejo de uma mulher de 60 anos, me parecia a coisa mais normal do mundo”, explica. Ela contrapõe a visão machista com a realidade de suas amigas, que mantêm vidas amorosas ativas, e compara a percepção sobre mulheres mais velhas com a de homens como Mick Jagger, que, mesmo com mais de 80 anos, mantém relacionamentos sem que isso seja visto como algo extraordinário.
Para a autora, o tema principal de “A Carne” é a reflexão sobre o amor e a sensação de não ter sido amado verdadeiramente, mesmo em relacionamentos duradouros. Ela cita Oscar Wilde: “Para a maioria de nós, a verdadeira vida é a que não vivemos”. Essa busca por um amor mais profundo e autêntico se intensifica com o avançar da idade, quando a percepção do tempo se torna mais aguda.
Envelhecer como renascimento
A obra de Rosa Montero é marcada por reflexões sobre a morte, a identidade e o tempo. Ela vê o envelhecimento não como um processo de perda, mas como uma oportunidade de intensificar a vivência. “Quando você começa a ficar bem mais velha, existe uma sensação tão vertiginosa de que o tempo está acabando que a vida começa a ficar ainda mais intensa. É bonito”, descreve. Essa intensidade, para ela, remete à descoberta do mundo nos primeiros anos de vida, criando uma nova forma de apreciar cada momento.
A escritora critica a forma como a menopausa ainda é vista como uma doença ou um fim da feminilidade, refletindo o discurso patriarcal. Ela argumenta que, longe de ser um declínio, a menopausa pode ser um período de libertação e bem-estar, especialmente para mulheres que sofriam com dores menstruais ou o medo da gravidez.
Avanços e retrocessos democráticos
Montero também expressa preocupação com o crescimento de forças reacionárias e neofascistas em todo o mundo. Ela vê um paralelo entre a desconstrução do sexismo e o avanço de movimentos que buscam restringir direitos conquistados. “Nessas voltas para trás, as mulheres costumam ser as primeiras vítimas”, alerta.
Testemunha da ditadura franquista, a escritora defende a democracia, mesmo em suas imperfeições. “A pior democracia é mil vezes melhor do que a melhor ditadura”, afirma, alertando para discursos que questionam o modelo democrático. Ela ressalta a importância de defender as conquistas sociais obtidas ao longo dos séculos, especialmente para as mulheres, que historicamente são as primeiras a sofrer com retrocessos autoritários.
A tatuagem “Nem pena nem medo”, verso do poeta chileno Raúl Zurita, que Montero carrega na pele, simboliza sua filosofia de vida diante do tempo e da morte: viver sem lamentar o passado e sem temer o futuro, abraçando a intensidade de cada momento.
As informações foram reunidas a partir de declarações da autora em entrevista.
