Nova York se torna palco para novo serviço de auxílio à morte digna
Um grupo de profissionais de saúde de Nova York lançou a Quiĕtus, um serviço inovador que visa auxiliar pacientes a ter acesso à morte assistida, respeitando os termos legais e médicos estabelecidos. A iniciativa surge após a recente legalização da prática no estado, que possui algumas das regulamentações mais estritas do país. A Quiĕtus opera como uma startup dedicada a oferecer um fim digno e autônomo para aqueles que assim o desejam, com a peculiaridade de realizar todos os atendimentos na residência dos pacientes.
A fundação da Quiĕtus é impulsionada por experiências pessoais e profissionais de seus criadores. Tara Shapiro, médica de cuidados paliativos, decidiu se dedicar a essa causa após presenciar a decisão de sua sogra, Janice Shapiro, de 81 anos, de buscar a morte assistida em Vermont, estado que já legalizava a prática para residentes de outros locais. A experiência, embora dolorosa, solidificou a convicção de Shapiro sobre a importância de oferecer opções para o fim da vida.
A equipe da Quiĕtus é composta por nove profissionais com formações diversas, incluindo David Atkins, assistente social com experiência em cuidados paliativos e ex-monge budista, e Cristian Zanartu, médico paliativista que também utiliza terapias alternativas. Daniel Cogan, enfermeiro especializado em dor crônica, completa o time, trazendo consigo o anseio de ajudar pacientes que sofrem com dores insuportáveis e buscam alívio. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela reportagem original.
Desafios logísticos e éticos na criação de um serviço de fim de vida
A criação da Quiĕtus envolveu a superação de complexos desafios logísticos e éticos. A equipe dedicou meses ao planejamento, definindo os procedimentos necessários para garantir que os pacientes cumprissem todas as exigências legais e médicas. Isso inclui duas avaliações médicas e uma avaliação de saúde mental, além da prescrição da combinação de medicamentos que induzem a morte. O custo total do serviço é de aproximadamente US$ 12 mil.
Um dos obstáculos significativos foi a obtenção dos medicamentos necessários. Rob Siegel, membro da equipe, conseguiu firmar parceria com uma farmácia familiar em Manhattan para o fornecimento das doses. A logística de entrega de substâncias potencialmente letais foi cuidadosamente planejada, tornando-se um ponto crucial para o funcionamento do serviço. Para muitos pacientes, a simples chegada do medicamento em casa já representa um alívio, antecipando a realização de sua vontade.
Debates sobre o momento ideal para a intervenção
Além das questões práticas, a equipe da Quiĕtus se debruçou sobre dilemas éticos e filosóficos acerca de uma morte reconfortante. Cogan defende a ideia de que a responsabilidade pela morte de um paciente implica em estar disponível para agir imediatamente em caso de dor aguda, mesmo que ocorra durante a madrugada. Por outro lado, Zanartu levanta a possibilidade de que, para um trabalho mais humano e íntimo, a ajuda para morrer não deva estar disponível sob demanda, sugerindo um ritmo que respeite a autonomia do paciente e a natureza do processo.
Primeiros passos e cautelas da Quiĕtus
Com a entrada em vigor da lei em Nova York, os membros da Quiĕtus sentiram uma mistura de insegurança e preparo. A incerteza sobre o número de pacientes que buscariam o serviço e o risco pessoal envolvido geraram inquietação. Tara Shapiro, por exemplo, revisita memórias de sua sogra, ponderando sobre a jornada profissional que agora trilha. Grupos que atuaram na aprovação da lei alertaram a equipe sobre a necessidade de cautela, pois muitos potenciais pacientes não se enquadram nos critérios rigorosos, como a ausência de uma doença terminal com prognóstico de vida superior a seis meses.
A Quiĕtus se depara com a delicada tarefa de recusar pedidos que não se alinham com a legislação, como no caso de um paciente paraplégico com expectativa de vida longa, que manifestou o desejo de morrer. A equipe reitera sua solidariedade, mas ressalta os limites impostos pela lei. Em 5 de agosto, Cristian Zanartu realizou a primeira visita a uma paciente com câncer terminal, um momento que evidenciou a seriedade e a carga emocional do papel que desempenham.
