A promessa e a realidade das ‘canetas’ para emagrecer
Medicamentos injetáveis que tratam diabetes e obesidade, popularmente conhecidos como ‘canetas’ para emagrecer, têm ganhado destaque pela sua eficácia na redução de peso. Substâncias como a semaglutida (princípio ativo do Ozempic) e a tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) atuam no hormônio GLP-1, responsável por regular as sensações de fome e saciedade. Ao diminuir o apetite, esses fármacos promovem a perda de peso, mas a ciência e especialistas alertam: a chave para manter os resultados a longo prazo reside na adoção de um estilo de vida mais saudável.
A obesidade é uma doença crônica, assim como hipertensão e diabetes, que demandam acompanhamento contínuo. Interromper o tratamento com essas medicações sem modificar hábitos pode levar ao retorno da condição. O reganho de peso após a suspensão do medicamento não é sinal de fraqueza de vontade, mas sim uma resposta biológica do corpo que busca recuperar o peso perdido. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Einstein Hospital Israelita e de uma revisão sistemática publicada no periódico BMJ.
A ciência por trás do reganho de peso
Estudos recentes reforçam a necessidade de uma abordagem multifacetada. Uma revisão sistemática publicada em janeiro no BMJ analisou 37 estudos com mais de 9.300 adultos com sobrepeso ou obesidade. A pesquisa revelou que, em média, os participantes recuperaram cerca de 0,4 kg por mês após a interrupção do tratamento com diferentes classes de medicamentos, incluindo os mais recentes como semaglutida e tirzepatida. Em média, os participantes permaneceram 39 semanas em tratamento e foram acompanhados por mais 32 semanas após o fim da medicação.
Durante o período de uso das medicações, os participantes perderam em média 8,3 kg, mais que o dobro do observado em grupos controle. No entanto, após a suspensão, o peso voltou a aumentar gradualmente. Com uma média de 400 gramas a mais por mês, estima-se que eles retornariam ao peso inicial em aproximadamente um ano e sete meses. Além da perda de peso, os benefícios metabólicos observados durante o tratamento, como melhora da glicemia, colesterol e pressão arterial, também tenderam a diminuir com o fim do uso dos fármacos.
Mudança de estilo de vida: o pilar para resultados sustentáveis
Especialistas enfatizam que os medicamentos são ferramentas eficazes, mas apenas parte de uma estratégia mais ampla. “As mudanças no estilo de vida potencializam a perda de peso e aumentam as chances de manter os resultados no longo prazo”, afirma o endocrinologista Paulo Rosenbaum. Ele ressalta que, sem uma alteração no padrão alimentar, a prática regular de atividade física e uma mudança comportamental, a tendência é recuperar boa parte do peso perdido.
Para garantir resultados sustentáveis, a adoção de hábitos saudáveis é fundamental. Uma alimentação rica em proteínas e fibras contribui para a saciedade e a redução do consumo de ultraprocessados. A prática regular de exercícios físicos ajuda a preservar a massa magra, aumentar o gasto energético e melhorar a saúde cardiovascular. Uma boa qualidade de sono é crucial para a regulação hormonal do apetite, e o controle do estresse pode mitigar episódios de alimentação emocional. Embora alguns indivíduos consigam manter o peso mesmo após a interrupção da medicação, os mecanismos de defesa do corpo contra a perda de gordura dificultam essa manutenção. O reganho de peso tende a ser menor em pessoas que perderam menos peso, tinham um grau menos severo de obesidade e conseguiram manter hábitos saudáveis de forma consistente.
O objetivo principal deve ser o tratamento de uma doença crônica, e não apenas a perda rápida de peso. O sucesso a longo prazo com as ‘canetas’ para emagrecer depende de uma estratégia integrada, construída em conjunto entre paciente, médico e equipe multiprofissional.
