Apesar do esforço em manter discrição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um histórico de proximidade e defesa pública ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que contrasta com a cautela demonstrada em meio à atual crise envolvendo o magistrado. A tentativa de desvincular a imagem do governo a de Moraes visa proteger a campanha de reeleição de possíveis contaminações, mas o passado recente revela uma relação de forte interlocução e apoio.
Nas últimas semanas, após a divulgação de mensagens entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Lula optou por manifestações genéricas, enfatizando a necessidade de investigar todos “sem blindagem de ninguém” e de que ninguém utilize o cargo público em benefício próprio “em nome da democracia”. Essa postura cautelosa, segundo apurações de bastidores, é uma decisão estratégica do PT para isolar a campanha eleitoral do escândalo que atinge o ministro. Contudo, o histórico recente de colaboração e alinhamento entre o Palácio do Planalto e o STF, especialmente com Alexandre de Moraes, dificulta essa demarcação.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por Folha de S.Paulo e Reuters.
Interlocução política e apoio em crises
Até poucas semanas antes da eclosão da atual crise, Alexandre de Moraes atuava como um importante interlocutor político para Lula, facilitando a relação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Um exemplo marcante dessa proximidade foi um encontro mediado por Moraes em sua própria residência, em agosto, que reuniu Lula e Alcolumbre, ambos afastados politicamente por meses. A reunião, que também contou com a participação do ministro Cristiano Zanin, foi considerada bem-sucedida na superação de divergências.
O apoio de Lula a Moraes também se manifestou de forma contundente em momentos de pressão internacional. Em julho de 2025, quando o governo Donald Trump impôs sanções da Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes, o presidente brasileiro determinou uma defesa incondicional do ministro por parte do governo. Lula chegou a comunicar a ministros do STF que o Executivo se posicionaria firmemente em defesa do magistrado e do Supremo. Posteriormente, em dezembro de 2025, em um evento público, Lula exaltou a “coragem estupenda” e o “comportamento exemplar” de Moraes, chamando-o de “orgulho de todo o Brasil”.
Influência em escolhas estratégicas
A relação de confiança entre Lula e Moraes estendeu-se a decisões estratégicas na área jurídica. A indicação de Paulo Gonet para o cargo de Procurador-Geral da República (PGR) em novembro de 2023 foi vista como uma vitória para Moraes e Gilmar Mendes, que apoiavam o nome de Gonet. Lula, inclusive, teria consultado Moraes antes de oficializar a indicação de Dino ao STF e informou pessoalmente a ele, Gilmar Mendes e Zanin sobre a escolha de Gonet antes do anúncio público. Além disso, o ministro teria articulado nomeações para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de nomes como André Ramos Tavares e Floriano de Azevedo Marques Neto, ambos amigos de Moraes.
O apoio ao ministro não se limitou a discursos e articulações internas. O governo Lula mobilizou a estrutura do Executivo para defender Moraes nos Estados Unidos. A Advocacia-Geral da União (AGU) ingressou formalmente em um processo movido pela Rumble e pela Trump Media contra o ministro na Justiça da Flórida, solicitando o encerramento da ação. Essa mobilização ocorreu após a comemoração pública de Lula pela remoção de Moraes e seus familiares da lista de sanções da Lei Magnitsky, resultado de uma defesa direta do presidente junto a Donald Trump.
A proximidade entre Lula e Moraes antecede o atual mandato presidencial. Logo após a vitória eleitoral de 2022, Lula já havia elogiado publicamente o então presidente do TSE, destacando sua “coragem estupenda” e “comportamento exemplar”, qualificando-o como “orgulho de todo o Brasil”. Essa relação de admiração e apoio mútuo, agora sob escrutínio em meio a uma nova crise, demonstra a complexidade e a profundidade da conexão entre o presidente e o ministro do STF.
