O geneticista Hugo Aguilaniu, que está de saída da direção-executiva do Instituto Serrapilheira, defende que a ciência brasileira precisa ousar mais. Segundo ele, o principal gargalo não está na capacidade dos pesquisadores de formular questões de ponta, mas sim na dificuldade das agências de fomento, públicas e privadas, em avaliar projetos com potencial de fracasso, mas também de descobertas revolucionárias.
Aguilaniu, que liderou o Serrapilheira por quase uma década, a primeira instituição privada dedicada ao financiamento de ciência fundamental no Brasil, acredita que a dificuldade em mensurar o risco é um problema global. “A gente sabe que muitas vezes o projeto vai fracassar e, de vez em quando, vai levar a uma descoberta totalmente incrível. Como avaliar esse risco é a questão”, pondera o cientista, que assumiu o cargo em 2017 com a missão de implementar um modelo de fomento distinto do tradicional.
O Serrapilheira, com um orçamento anual de R$ 30 milhões, focou em oferecer financiamento flexível, priorizando jovens pesquisadores e a redução da burocracia. Desde sua criação em março de 2017, o instituto apoiou 297 projetos em ciências da vida, exatas, engenharia e computação. Ao todo, foram investidos R$ 130 milhões em 453 iniciativas de ciência e divulgação científica, com formação de cerca de 180 estudantes. Além disso, destinou aproximadamente R$ 30 milhões para ações de diversidade, com editais voltados a grupos minorizados e para a inclusão em equipes apoiadas.
O desafio de financiar a pesquisa arriscada
Um dos maiores desafios para o Serrapilheira, segundo Aguilaniu, tem sido incentivar a submissão de projetos genuinamente arriscados. “O nosso fracasso é quando um pesquisador submete para o nosso apoio um projeto igualzinho ao que mandaria à Fapesp ou ao CNPq. Ele vai ter uma produção científica robusta, mas não tem o risco”, explica. A ideia da filantropia, como ressalta Guilherme Ary Plonski, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP, é justamente complementar o setor público, oferecendo financiamento para pesquisas menos sujeitas às regras rígidas que permeiam o investimento público.
Plonski, coordenador do Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (Gema), vê o Serrapilheira como pioneiro no ecossistema filantrópico brasileiro ao abrir uma linha de fomento privado à ciência, afastando-se do modelo tradicional de doações a universidades. O instituto precisou, inclusive, conquistar a confiança de pesquisadores acostumados a outros tipos de financiamento.
Liberdade e diversidade como pilares
Aguilaniu também destaca o papel do Serrapilheira em “provocar” políticas integrativas, como a criação de cotas na pós-graduação e o apoio a jovens pesquisadores negros, indígenas e periféricos. “Nós produzimos formações focalizadas e demos liberdade. Isto fez com que muitos saíssem pensando em ideias que tradicionalmente em um laboratório talvez não seguissem”, afirma, referindo-se a editais específicos para pós-doutorandos negros e indígenas.
Outro ponto crucial abordado pelo geneticista foi a redução da carga administrativa sobre os pesquisadores. Ao invés de exigir detalhamento excessivo sobre cada centavo gasto, o Serrapilheira confiou na autonomia dos cientistas para gerir os recursos, focando nos resultados. “Nós sabemos centavo por centavo onde o nosso dinheiro foi gasto, mas deixamos na mão dos pesquisadores decidirem. Se ele avalia que um modelo de computador é melhor para ele, não precisa mostrar que é o mais barato, simplesmente damos o dinheiro para a compra. Nunca nos passaram a perna”, relata.
Um novo capítulo: Instituto Relva
A saída de Aguilaniu do Serrapilheira marca o início de um novo projeto: a liderança do Instituto Relva. Criado a partir de um projeto-piloto do próprio Serrapilheira, o Relva terá um foco distinto. Não atuará como agência de fomento, mas sim como um centro de pesquisa dedicado à área ambiental, com o objetivo de aproximar o conhecimento científico das políticas públicas e propor soluções para gestores ambientais.
Como legado, Aguilaniu ressalta a contribuição do Serrapilheira para a ciência e sua divulgação, expressando o desejo de continuar apoiando pesquisadores e a mídia na produção de dados confiáveis. Ele enfatiza que a divulgação científica de qualidade exige esforço e que nem todo cientista possui vocação para tal, mas que o apoio a essa frente é fundamental.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Instituto Serrapilheira e declarações de Hugo Aguilaniu.
