Nova pesquisa desvenda os últimos meses de vida de jovens sacrificados pelos Incas, oferecendo um retrato detalhado do ritual Capacocha.
Por volta de 1450, três jovens indígenas foram submetidos a um ritual de sacrifício pelo poderoso Império Inca em montanhas do atual Chile. Uma pesquisa inovadora, publicada na revista Science Advances, utilizou uma combinação de análises químicas e anatômicas para reconstruir os últimos meses de vida dessas crianças e adolescentes. Os resultados reforçam a teoria de que suas mortes marcaram o fim de longas peregrinações cerimoniais, destinadas a fortalecer a autoridade imperial incaica sobre vastas regiões da América do Sul.
O estudo aprofunda o conhecimento sobre o ritual conhecido como Capacocha (ou Qhapaq Hucha em quíchua), uma prática já documentada por relatos coloniais e evidências arqueológicas, como corpos notavelmente preservados devido ao clima seco dos Andes e do deserto do Atacama. Na antiga religião andina, o Capacocha era uma oferenda às montanhas, consideradas divindades. Esses sacrifícios podiam ocorrer em resposta a desastres naturais, para celebrar a ascensão de famílias nobres ao poder, ou para consolidar a influência incaica em territórios recém-conquistados.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo estudo publicado na Science Advances.
O ritual e a seleção das vítimas
Acredita-se que os jovens, escolhidos por sua suposta perfeição física e moral, eram primeiramente levados a Cusco, o centro cerimonial e político do império, localizado no atual Peru. De lá, embarcavam em jornadas por diversas regiões até atingirem os picos montanhosos onde seriam sacrificados. Para os incas, essas vítimas, após a morte, alcançavam um status divino, atuando como mediadoras entre a população e as forças espirituais.
Análises detalhadas dos corpos mumificados
A pesquisa recente analisou três corpos encontrados no século passado. Duas jovens, com 9 e 18 anos, foram descobertas em 1976 em Cerro Esmeralda, no deserto do Atacama. Um menino de 8 anos, conhecido como “Menino de El Plomo”, foi encontrado em 1954 em Cerro El Plomo, na região central do Chile. Seus corpos, preservados naturalmente, passaram por exames de tomografia computadorizada, análises de pele e datação por carbono-14, que incluiu tecidos de suas vestimentas para estimar a data do sacrifício.
Um dos achados mais reveladores provém da análise química dos cabelos longos dos corpos mumificados. Ao examinar as proporções de isótopos de elementos como carbono, nitrogênio, oxigênio e enxofre, os cientistas conseguiram rastrear os ambientes por onde os jovens passaram. Diferentes proporções desses isótopos funcionam como uma assinatura ambiental, refletindo a dieta e as condições geográficas de uma pessoa ao longo do tempo. O crescimento do cabelo permite observar essas mudanças, com as pontas indicando períodos mais distantes da morte e a base, o período mais próximo.
Evidências de longas jornadas e padronização alimentar
As análises revelaram grandes flutuações nos isótopos presentes nos cabelos das vítimas ao longo de vários meses, com composições que correspondem aos diferentes ambientes dos domínios incas no século XV. Isso corrobora a ideia de que os jovens peregrinaram por milhares de quilômetros antes de serem sacrificados. A hipótese é reforçada pela observação das solas dos pés do “Menino de El Plomo”, que apresentavam espessamento incomum, indicando longas caminhadas descalço.
Nos últimos meses de vida, a composição química dos cabelos dos três indivíduos apresentou uma convergência, sugerindo uma dieta padronizada antes do ritual final. No caso das duas jovens, a tomografia não forneceu pistas definitivas sobre a causa da morte, em parte devido a danos causados por autopsias antigas. Marcas de estrangulamento originalmente identificadas foram provavelmente superficiais, causadas pelas roupas.
Hipóteses sobre a causa da morte e consolidação do poder
O “Menino de El Plomo”, por outro lado, apresenta uma fratura no crânio que, segundo os pesquisadores, ocorreu pouco antes de sua morte. A hipótese é que tenha sido resultado de um golpe com uma arma contundente, como um tacape de pedra. Acredita-se que a região sul do Império Inca, abrangendo partes do Chile e Argentina atuais, foi anexada poucas décadas antes desses sacrifícios. Portanto, os rituais do Capacocha podem ter sido parte estratégica do processo de consolidação do poder incaico nessas áreas recém-incorporadas.
