Estudo piloto sobre polilaminina em lesões medulares ainda não confirma eficácia
Estudo piloto sobre polilaminina em lesões medulares ainda não confirma eficácia

Estudo piloto sobre polilaminina em lesões medulares ainda não confirma eficácia

Avanço promissor, mas cautela necessária Um estudo piloto sobre a aplicação da polilaminina em pacientes com lesões medulares graves, publicado na renomada revista científica Spinal Cord, da Nature, trouxe resultados preliminares que indicam segurança e potencial melhora no quadro de alguns voluntários. No entanto, os pesquisadores alertam que ainda não é possível afirmar a eficácia […]

Resumo

Avanço promissor, mas cautela necessária

Um estudo piloto sobre a aplicação da polilaminina em pacientes com lesões medulares graves, publicado na renomada revista científica Spinal Cord, da Nature, trouxe resultados preliminares que indicam segurança e potencial melhora no quadro de alguns voluntários. No entanto, os pesquisadores alertam que ainda não é possível afirmar a eficácia da substância, sendo indispensáveis estudos clínicos mais robustos para tal confirmação.

A pesquisa, conduzida entre 2016 e 2021 em hospitais do Rio de Janeiro e Niterói, envolveu oito pacientes com lesão medular classificada como AIS A (grave). Desses, seis apresentaram regressão para os níveis C ou D (menos graves), demonstrando retomada de movimentos e melhorias em funções fisiológicas. Durante o experimento, três voluntários faleceram, mas o comitê de ética e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) concluíram que as mortes, por causas como problemas cardíacos, sepse e pneumonia, não estavam relacionadas à aplicação da polilaminina.

O artigo, liderado pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, detalha que a administração da substância ocorreu sem intercorrências no grupo estudado, que sofreu lesões por diferentes tipos de acidentes. Apesar dos resultados animadores, a conclusão central é que o estudo, por seu caráter piloto e pequeno número de participantes, não permite tirar conclusões definitivas sobre a eficácia da polilaminina. Contudo, ele serve como uma prova de conceito, justificando a continuidade das investigações em ensaios clínicos controlados.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Spinal Cord.

Caminho até a publicação e validação dos dados

A polilaminina ganhou os holofotes em setembro do ano passado, apresentada como uma substância com potencial para restaurar a medula espinhal. Contudo, um artigo pré-print divulgado em fevereiro de 2024 na plataforma MedRxiv, que não havia passado por revisão por pares, foi rejeitado por diversas revistas científicas devido a erros e imprecisões. Um dos pontos críticos levantados por especialistas era a falta de informações sobre a exclusão do diagnóstico de choque medular antes da aplicação da substância. O choque medular, uma condição temporária que afeta reflexos e mobilidade, poderia mascarar ou confundir a interpretação dos resultados.

Em resposta às críticas, a equipe de pesquisa realizou uma revisão geral do texto, com correções técnicas e ajustes na apresentação e interpretação dos dados. No artigo publicado na Spinal Cord, os autores esclarecem que todos os exames foram realizados com os participantes totalmente alertas e que a presença de reflexos como o bulbocavernoso ou o sinal de Babinski indicava a resolução do choque medular, minimizando o risco de classificações equivocadas.

Próximos passos: testes regulatórios e aplicações compassivas

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou em janeiro deste ano o desenvolvimento do estudo clínico regulatório da polilaminina pela farmacêutica Cristália. A fase 1, focada em avaliar a segurança da substância, envolverá cinco voluntários com lesões medulares torácicas no Hospital das Clínicas de São Paulo. Caso a segurança seja confirmada, a pesquisa avançará para a fase 2, que investigará a eficácia.

Paralelamente aos estudos formais, desde dezembro passado, 105 pessoas receberam aplicações compassivas de polilaminina no Brasil, mediante autorização judicial e da Anvisa. A Cristália monitora esses casos e informa que não foram registrados efeitos colaterais diretamente ligados à substância, e os seis óbitos ocorridos nesse período foram atribuídos a complicações inerentes às próprias lesões medulares. Essas aplicações, permitidas em casos de lesões completas e recentes, têm gerado relatos de melhora significativa na mobilidade e funções fisiológicas por parte de pacientes, médicos e fisioterapeutas. Embora esses dados não configurem um estudo clínico formal, estão sendo tabulados para análise retrospectiva como uma série de casos, buscando expandir a compreensão sobre a aplicação da polilaminina em cenários da vida real.

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