Desejos de autonomia e cuidado marcam a luta por direitos reprodutivos
No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, vozes de mulheres negras ecoam com um desejo uníssono: o poder de escolha sobre a própria maternidade. Mais do que a decisão de levar adiante ou interromper uma gravidez, o direito reprodutivo para essas mulheres abrange a autonomia para decidir se e quando ter filhos, com acesso pleno à informação e a métodos contraceptivos. Envolve também o respeito à dor durante consultas ginecológicas, um atendimento digno no parto e a vivência da maternidade livre das amarras do racismo.
As informações foram reunidas a partir de relatos de Nathália Rodrigues, Bárbara Carine, Patrícia Andrade, Bruna Dias, Michele Salles, Luciana Azevedo, Heloisa Amâncio e Tulani Hipólito.
Acesso à informação como ferramenta de empoderamento
A falta de informação e a gravidez precoce, especialmente entre meninas negras, são barreiras significativas para a realização de sonhos e o desenvolvimento pessoal e profissional. Segundo o IBGE, sete em cada dez meninas que engravidam antes dos 19 anos são negras. Muitas vezes, essa realidade as força a abandonar os estudos e limitar suas aspirações, como no caso da corretora de imóveis Patrícia Andrade, que precisou desistir da faculdade ao engravidar aos 22 anos e ainda sonha em cursar letras. A comunicadora Bruna Dias, que cresceu vendo colegas deixarem a escola por gravidez na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, defende enfaticamente o acesso à educação sexual e a métodos contraceptivos para adolescentes, argumentando que uma mulher negra informada e segura de suas decisões é um ganho para a sociedade.
O corpo negro e a subestimação da dor
A experiência de Michele Salles, que perdeu três gestações antes de ter seu filho, revela a dor e o questionamento que muitas mulheres negras enfrentam em seus processos reprodutivos. Ela relata ter sido submetida a procedimentos dolorosos sem anestesia e ter vivenciado racismo médico, com profissionais que acreditavam em uma suposta maior tolerância à dor em mulheres negras. Um estudo de 2024 publicado no Journal of Pain corrobora essa percepção, indicando que profissionais de saúde tendem a subestimar a dor de mulheres negras de forma desproporcional. A professora Luciana Azevedo questiona a falta de atenção e o desconforto em exames ginecológicos, clamando por estratégias que amenizem o sofrimento.
Parto sem violência e acolhimento
A violência obstétrica é uma realidade brutal para mulheres negras, que são as principais vítimas, conforme aponta a pesquisa “Nascer no Brasil”. Bárbara Carine precisou se mobilizar para garantir uma equipe de parto composta inteiramente por profissionais negras. A servidora pública Heloisa Amâncio relembra partos em que foi deixada sem observação por horas, tendo sua bolsa rompida e sendo forçada a caminhar em trabalho de parto, em um cenário de descaso que reforça a crença de que mulheres negras suportam mais dor e espera. Em contrapartida, Patrícia Andrade relata uma experiência positiva de parto pelo SUS, na Beneficência Portuguesa de São Paulo, e deseja que outras mulheres negras tenham o mesmo acolhimento, lamentando o fim do convênio que oferecia esse atendimento.
Um futuro de afeto e liberdade para as próximas gerações
Os desejos das mulheres negras entrevistadas transcendem suas próprias experiências, projetando um futuro mais justo e acolhedor para seus filhos. Patrícia Andrade almeja que seus filhos tenham acesso a uma educação de qualidade e cresçam em um ambiente de afeto e amor, algo que ela considera desafiador para mulheres negras. A advogada Tulani Hipólito, que ainda não tem filhos, deseja que eles desfrutem de maior liberdade de escolha e ambição. Em um contexto onde mais da metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, em sua maioria pretas e pardas, a luta por direitos reprodutivos e um futuro sem as marcas do racismo se torna ainda mais urgente e essencial.
