Descoberta de fóssil de cobra no Brasil oferece novas perspectivas sobre a evolução das serpentes.
O achado de um fóssil relativamente completo de uma cobra da Era dos Dinossauros no Brasil está proporcionando insights valiosos sobre as origens e a diversificação desses répteis. Batizada de Tametara mirim, a serpente descoberta possuía um tamanho modesto e, segundo as análises, passava boa parte de sua vida debaixo da terra, um comportamento distinto de outras cobras primitivas e modernas.
A descrição detalhada da Tametara mirim foi publicada na renomada revista científica Nature. O estudo é fruto de uma colaboração internacional entre pesquisadores brasileiros e especialistas de instituições como a Universidade de Princeton (EUA), a Universidade de Brasília (UnB) e a USP de Ribeirão Preto (SP). O fóssil, encontrado em rochas do município de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, tem uma idade estimada entre 85 e 75 milhões de anos.
Com 41,9 cm de comprimento em seu estado preservado, a T. mirim exibe um esqueleto articulado, com a metade posterior do crânio e 103 vértebras intactas. O nome científico homenageia suas dimensões modestas (“mirim”, do tupi) e uma crista craniana característica (“Tametara”, que significa “adornado”). Acredita-se que seu tamanho original fosse consideravelmente maior, pois a porção final do corpo não foi preservada.
Anatomia revela adaptações para a vida subterrânea
A análise minuciosa do fóssil, incluindo microtomografia computadorizada de alta resolução, permitiu reconstruir detalhes da anatomia cerebral e do ouvido interno da Tametara mirim. A ausência de um desenvolvimento proeminente do teto óptico, uma região cerebral crucial para a visão em vertebrados não mamíferos, é um forte indicativo de seus hábitos fossoriais, ou seja, de viver enterrada.
“Em cobras, em geral, você tem uma marcação na parte interna da caixa craniana correspondente ao teto óptico. Mas ela não aparece na Tametara”, explicou Gabriela Sobral, uma das autoras do estudo. “É um indício forte de que o bicho tinha hábitos fossoriais. Não seria algo eventual, superficial – ela realmente estava habitando um ambiente subterrâneo.”
Adicionalmente, a estrutura do ouvido da T. mirim apresenta semelhanças com a de lagartos atuais, facilitando a captação de sons de baixa frequência que se propagam bem em ambientes sólidos. Os ossos do crânio são densos e sobrepostos, sugerindo um reforço estrutural para suportar a pressão física do enterramento.
Posicionamento evolutivo e parentesco com outras serpentes
A Tametara mirim se encaixa no chamado grupo troncal das serpentes, uma linhagem que inclui membros extintos e que são mais próximos das cobras do que dos lagartos, de onde se acredita que tenham evoluído. Isso indica que a T. mirim pertence a uma linhagem já extinta, sem parentes diretos entre as espécies atuais.
O registro fóssil de cobras da Era dos Dinossauros inclui a Najash rionegrina, da Argentina, com cerca de 90 milhões de anos, considerada uma “prima de primeiro grau” da T. mirim. O parentesco com a Najash, que possuía pequenas patas traseiras, levanta a hipótese de que a serpente brasileira também pudesse ter membros posteriores, embora essa possibilidade ainda necessite de confirmação com novas descobertas.
A diversidade de hábitos entre as cobras primitivas, incluindo as aquáticas e terrestres, sugere que a exploração de diferentes nichos, como o subterrâneo, foi um fator importante na diversificação inicial do grupo. A descoberta da Tametara mirim em Presidente Prudente, hoje abrigada no Museu Paleontológico de Marília, continua a enriquecer nosso entendimento sobre a fascinante história evolutiva das serpentes.
