Estratégia de caça calculada revela nova faceta do comportamento das orcas
Na costa do México, orcas (Orcinus orca) têm demonstrado uma técnica de caça surpreendentemente coordenada e violenta para se alimentar de peixes-lua, que podem pesar mais de 900 quilos e possuem uma pele grossa que geralmente os protege de predadores. O biólogo marinho Erick Higuera, da organização científica Conexiones Terramar, descreveu os ataques como caóticos, mas intensamente calculados, documentando pela primeira vez em 2021 uma estratégia onde as orcas arremessam a presa como um frisbee antes de fazê-la “explodir”.
Um estudo recente publicado na revista Frontiers in Ethology detalha dois eventos filmados em 2024 e 2025, onde a tática foi observada em ação. As filmagens mostram uma orca adulta segurando o peixe-lua em sua boca, enquanto outra adulta nada em alta velocidade para atingir a presa. Ao ser solto pela primeira, o peixe-lua é violentamente impactado pela segunda, fragmentando-se em pedaços. Em seguida, uma orca jovem se junta para se alimentar, evidenciando um papel de aprendizado e cooperação.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista científica Frontiers in Ethology e observações de biólogos marinhos.
Um comportamento estudado há décadas, agora com detalhes chocantes
Cientistas acompanham a predação de peixes-lua por orcas há várias décadas, com registros iniciais no golfo da Califórnia datando dos anos 1990. Um artigo publicado em janeiro deste ano por Higuera e colegas relatou mais de 20 encontros entre esses predadores e suas presas, com a presença de filhotes de orca em oito deles. Na época, levantou-se a hipótese de que as fêmeas poderiam estar utilizando os peixes-lua para treinar seus filhotes ou simplesmente por diversão.
No entanto, os fragmentos observados nos vídeos mais recentes sugerem uma evolução na técnica. Os peixes-lua nesses ataques estavam significativamente mais despedaçados do que em observações anteriores, indicando que essa estratégia de fragmentação pode ser específica para o peixe-lua-de-cauda-afiada (Masturus lanceolatus).
Explicações evolutivas e culturais para a tática de impacto
O ecologista marinho Robert Pitman, da Universidade Estadual de Oregon, sugere que a estratégia de arremessar e fragmentar o peixe-lua pode ser uma adaptação inteligente. A pele do peixe-lua é composta por dentículos dérmicos, estruturas semelhantes às escamas ásperas dos tubarões. Ao golpear a presa com força, as orcas conseguem acessar a carne sem desgastar excessivamente seus dentes, preservando suas ferramentas de caça.
Marianne Nyegaard, bióloga marinha do Museu Memorial de Guerra de Auckland, que estuda peixes-lua, expressou satisfação com a documentação detalhada desse comportamento. Ela ressalta que os peixes-lua são frequentemente vistos como curiosidades, e não como parte integral do ecossistema. O novo estudo, segundo ela, contribui para trazer essa espécie para uma compreensão mais ampla da ecologia marinha.
Herança cultural e paralelos com outras interações de orcas
Luke Rendell, biólogo marinho da Universidade de St. Andrews, aponta que o conhecimento sobre como caçar peixes-lua pode ser transmitido entre gerações de orcas por meio da herança cultural. Ele também traça um paralelo entre essa tática de impacto e as interações mais conhecidas entre orcas e embarcações na costa da Península Ibérica, onde as orcas abalroaram e afundaram barcos.
“Em ambos os casos, bater em algo que encontram no ambiente leva a novos conhecimentos. Comida, como relatado no estudo, e brincadeiras divertidas, no caso das interações com barcos”, explicou Rendell, sugerindo que o comportamento de impactar objetos no ambiente pode ter múltiplas funções, desde a obtenção de alimento até formas de entretenimento e aprendizado.
