Dia do Homem expõe crise de masculinidade e ascensão de cursos 'para macho'
Dia do Homem expõe crise de masculinidade e ascensão de cursos ‘para macho’

Dia do Homem expõe crise de masculinidade e ascensão de cursos ‘para macho’

O Dia do Homem, celebrado em 15 de julho no Brasil, tornou-se um palco para debates complexos sobre a masculinidade. O que começou como uma iniciativa informal em 1992, idealizada por escritores, evoluiu para uma data utilizada para promover a saúde masculina e o autocuidado. No entanto, a efeméride de 2024 chega em um momento […]

Resumo

O Dia do Homem, celebrado em 15 de julho no Brasil, tornou-se um palco para debates complexos sobre a masculinidade. O que começou como uma iniciativa informal em 1992, idealizada por escritores, evoluiu para uma data utilizada para promover a saúde masculina e o autocuidado. No entanto, a efeméride de 2024 chega em um momento de acirrados debates sobre a crise da masculinidade hegemônica, o crescimento de movimentos como o ‘red pill’ e a proliferação de cursos voltados para homens, que prometem redefinir o que significa ser ‘macho’.

A discussão sobre o papel do homem na sociedade e a própria definição de masculinidade era incipiente na década de 1990. Segundo Guilherme Valadares, fundador do projeto Papo de Homem, o foco era predominantemente em como ser mais viril e bem-sucedido, longe de um debate aberto sobre as múltiplas formas de masculinidade. “Falar sobre o tema em público praticamente não existia”, afirma Valadares. Hoje, a perspectiva mudou, com o termo “masculinidades”, no plural, ganhando espaço.

Pesquisas recentes indicam uma abertura para o diálogo. Um estudo nacional realizado pelo Instituto Papo de Homem em parceria com o Pacto Global da ONU em 2023 revelou que 90% dos homens adultos gostariam de participar de programas que auxiliassem no desenvolvimento do equilíbrio emocional, responsabilidade, respeito e cuidado. Entre garotos de 13 a 17 anos, 60% relataram ter poucas referências masculinas no cotidiano e 70% expressaram o desejo de aprender a tratar meninas e mulheres com respeito e igualdade.

Apesar desse movimento progressista, o estereótipo do homem emocionalmente analfabeto, focado em trabalho, performance, dinheiro e conquistas sexuais, persiste. “Isso atravessa gerações de modo quase intacto, porque é uma mudança que se transmite menos por discurso e mais por exemplo, dentro de casa”, explica Valadares. Essa defasagem entre as transformações sociais e as estruturas internas masculinas contribui para o cenário atual, marcado também por um contramovimento reacionário que ganha força globalmente.

A Crise e a Busca por Novas Referências

Pedro de Figueiredo, fundador do Memoh (Homem, de trás para frente), observa que a crise da masculinidade não é nova, mas tem sido reaquecida por produções culturais e pelo aumento de casos de feminicídio. Ele identifica dois caminhos para lidar com esse incômodo: a vergonha, vista como um sintoma positivo de que a pessoa se importa e busca mudança, e o caminho masculinista, onde o homem ressentido terceiriza a responsabilidade e se vê como vítima do feminismo.

Para o psicólogo Paulo Gonzaga, o modelo tradicional de masculinidade, herdado do século XIX, mostra-se esgotado. Esse arquétipo do homem provedor, forte e racional, que perpetua estruturas de poder e opressão de gênero, é questionado por novas formas de ser homem que emergem de conversas e coletivos. “É necessário compreender que existem várias formas de ser homem e várias formas de exercer sua masculinidade”, defende Gonzaga, alertando que a imposição de um único modelo gera sofrimento.

A construção da masculinidade negra, por sua vez, é atravessada por questões como o racismo e a desigualdade social. Gonzaga aponta que homens negros não desfrutam dos privilégios da estrutura patriarcal, sendo muitas vezes hipersexualizados e enfrentando barreiras para cumprir o papel de provedor ensinado pela sociedade.

O Fenômeno ‘Red Pill’ e o Mercado da Insegurança

O movimento ‘red pill’ surge, segundo especialistas como a escritora Djamila Ribeiro, como uma tentativa de manter um sistema de poder que privilegia o homem, preso a modelos antigos que não acompanham os avanços femininos. “Muitos não acompanham os avanços das mulheres e ficam presos a um modelo antigo”, afirma Ribeiro, que vê o discurso masculinista se atualizando e migrando para as redes sociais, onde coaches e influenciadores lucram com a frustração masculina.

O discurso desses grupos, muitas vezes sedutor e focado em autoajuda, disciplina e produtividade, gradualmente desliza para a demonização das mulheres e a culpa de uma suposta cultura anti-homens. Djamila Ribeiro alerta que líderes desses movimentos frequentemente exibem posições supremacistas brancas e conservadoras.

Mayhumi Kitagawa, fundadora da Athos, consultório especializado no atendimento de homens, explica que muitos buscam “coaches” e influenciadores da “machosfera” em vez de terapeutas por ser um caminho mais confortável, onde ouvirão o que desejam. A Athos, que conta apenas com profissionais homens, surgiu a partir da demanda de mulheres que buscavam que seus parceiros tivessem ferramentas equivalentes para acompanhar seu desenvolvimento pessoal.

Os encontros do Memoh, que ocorrem online, abordam temas como medo do feminismo, conciliação entre carreira e paternidade, e sexualidade. Figueiredo nota um debate público mais maduro e um público mais engajado nos últimos anos, embora perceba uma mudança para homens progressistas, possivelmente influenciada pelo cenário político. Para Gonzaga, homens geralmente procuram ajuda psicológica em momentos de sofrimento intenso, tendo dificuldade em admitir a necessidade de apoio, pois foram “produzidos para ser o super-herói”.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por O Dia, Papo de Homem, Memoh, Athos e falas de especialistas como Guilherme Valadares, Pedro de Figueiredo, Paulo Gonzaga, Djamila Ribeiro e Mayhumi Kitagawa.

Tags:

Veja Também

Congresso Nacional engaveta 7 em cada 10 medidas do governo Lula

Congresso Nacional engaveta 7 em cada 10 medidas do governo Lula

Resistência do STF à direita e a ameaça de impeachment de ministros ganham força na eleição

Resistência do STF à direita e a ameaça de impeachment de ministros ganham força na eleição

PGR defende envio de armas de Bolsonaro ao Exército para destruição ou doação

PGR defende envio de armas de Bolsonaro ao Exército para destruição ou doação

Ossos descobertos em Taiwan ampliam o mistério sobre os enigmáticos Denisovanos

Ossos descobertos em Taiwan ampliam o mistério sobre os enigmáticos Denisovanos

Novos fármacos e adesão ao tratamento: a batalha contra o colesterol alto no Brasil

Novos fármacos e adesão ao tratamento: a batalha contra o colesterol alto no Brasil