A ascensão de Eraí Maggi Scheffer ao trono do agronegócio brasileiro é marcada por uma expansão agressiva, inovação financeira e um foco implacável na produção primária. Considerado o novo “Rei da Soja”, Scheffer comanda o Grupo Bom Futuro, um conglomerado que transcende a agricultura, abrangendo logística, energia e indústria, com um faturamento anual estimado em mais de R$ 6 bilhões. A magnitude de sua operação, com mais de 700 mil hectares cultivados, supera o território de diversas nações e o posiciona como um gigante do setor.
A história de Eraí Maggi Scheffer é um testemunho da transformação do campo brasileiro. Nascido em uma família de pequenos colonos no Paraná, com apenas 65 hectares na década de 1970, ele herdou a gestão dos negócios familiares precocemente, após a morte do pai. Em meio a um cenário de restrição de crédito, sua visão estratégica o levou a arrendar terras vizinhas para otimizar o uso de maquinário, uma tática que se tornaria a espinha dorsal de sua expansão.
A migração para o Mato Grosso, impulsionada pela política de integração nacional e pela oportunidade de arrendar a Fazenda Bom Futuro em Rondonópolis, foi um divisor de águas. Com o apoio financeiro de seu tio André Maggi, Eraí e seus irmãos iniciaram uma operação que se provou altamente lucrativa, com pagamentos em sacas de soja protegendo o negócio da instabilidade cambial. A compra definitiva da fazenda em 1995 marcou o nascimento do Grupo Bom Futuro, dando início a uma escalada sem precedentes na agricultura tropical.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Gazeta do Povo.
Expansão Metódica e Diversificação Estratégica
Com a base consolidada no Mato Grosso, Eraí adotou uma estratégia de expansão geográfica metódica, financiando novas aquisições com fluxos de caixa operacionais e linhas de crédito. Sapezal, em Mato Grosso, tornou-se um polo central para o crescimento da Bom Futuro. A venda estratégica de terras para grupos como a Ceval impulsionou aquisições fracionadas na região de Campo Verde, permitindo que cada nova área adquirida gerasse retorno antes da próxima etapa. Em 1998, a instalação da primeira Indústria de Beneficiamento de Algodão (IBA) marcou a transição da empresa de produtora de grãos para um complexo agroindustrial.
A Coroação do Novo Rei da Soja
Durante anos, o título de “Rei da Soja” esteve nas mãos de seu primo, Blairo Maggi. No entanto, no início dos anos 2000, uma divergência estratégica entre os ramos da família marcou a ascensão de Eraí. Enquanto Blairo direcionou a Amaggi para outras etapas da cadeia do agronegócio, como trading e infraestrutura, Eraí concentrou seus esforços no domínio da atividade primária, “dentro da porteira”. Seu foco no aumento da produção permitiu à Bom Futuro atingir taxas de expansão de área cultivada superiores a 20% ao ano.
A virada na liderança se tornou evidente na safra de 2009/2010, quando Eraí cultivou 223 mil hectares de soja, a maior extensão plantada por um único produtor no país até então, superando os 168 mil hectares de Blairo. Duas decisões foram cruciais para consolidar seu domínio: a rápida adoção de tecnologias de agricultura de precisão, elevando a produtividade para mais de 66 sacas por hectare, e o arrendamento contracíclico de áreas. Ao assumir o risco direto da produção, a Bom Futuro sacrificou a presença na exportação direta, mas monopolizou a oferta na origem, tornando grandes tradings dependentes de seus volumes.
Fidelidade ao Mato Grosso e Ousadia Financeira
A sustentação do crescimento de dois dígitos em um setor volátil ancorou-se em dois pilares: a contratação de crédito em dólar e a fidelidade geográfica ao Mato Grosso. Em contraste com outros conglomerados que pulverizaram o risco geográfico, Eraí concentra 100% de seus esforços de expansão no estado, aproveitando o clima favorável e a capacidade de realizar duas safras anuais. Essa estratégia se complementa com o financiamento de operações em dólar, eliminando o risco cambial e liberando a empresa das altas taxas de juros brasileiras.
Essa abordagem financeira provou sua eficácia em cenários de crise, como entre 2005 e 2007, quando Eraí aproveitou a descapitalização de concorrentes para fechar parcerias e assumir terras endividadas, expandindo sua área cultivada de 110 mil para cerca de 160 mil hectares em apenas dois anos. A agressividade na aquisição de terras continua, com investimentos bilionários recentes, como a compra das fazendas Itaipu e Tupi Barão por R$ 1,8 bilhão e a aquisição de 18,7 mil hectares da Radar.
