O corpo que fala: a voz da ciência no universo digital sobre a morte
Em um cenário onde a vida, a saúde e o bem-estar dominam as discussões online, a médica legista Cristine Scattolin, de 39 anos, encontrou um nicho inexplorado e tabu: a morte. Com mais de 160 mil seguidores em seu perfil no Instagram, o “Café com Perícia Médica”, Cristine se tornou uma influenciadora ao compartilhar conteúdos sobre o processo da morte e o cotidiano no Instituto Médico Legal (IML). Sua iniciativa surge da percepção de uma sociedade ávida por informações sobre um tema ainda cercado de mistério e receio.
A curiosidade sobre o que acontece com o corpo após o falecimento e como entender a finitude é latente. Cristine, que também é professora de epidemiologia na FMUSP, percebeu essa lacuna ao iniciar suas publicações como um registro pessoal de estudos. O que começou como uma ferramenta de estudo rapidamente se transformou em um canal de comunicação direto com o público, que passou a fazer perguntas cada vez mais específicas.
A médica reluta em se considerar uma influenciadora, mas reconhece o impacto de sua presença digital. “Um dos meus objetivos na rede social é normalizar o que tem de mais normal no mundo: morrer. Ninguém escapa disso”, afirma. No Brasil, a média é de 4.000 óbitos diários, segundo o IBGE. Em casos de mortes violentas ou suspeitas, os corpos são encaminhados para necropsia em uma das 381 unidades do IML do país. Cristine atua em uma cidade do litoral de São Paulo, analisando esses casos.
A perspectiva do IML: o que o corpo revela
Cristine lida diariamente com as consequências de mortes não naturais, como acidentes de trânsito – o mais comum em seu trabalho –, afogamentos, quedas e intoxicações. Ela relata que a experiência no IML transforma a visão sobre a vida: “A gente vê pessoas que saíram para trabalhar e caíram de moto, que estavam em uma festa e foram atacadas ou uma pessoa que teve um acidente bobo e morreu. Traz a perspectiva de que, do nada, a gente pode não estar mais aqui”. Essa constatação reforça a ideia de que muitos dos problemas que afligem as pessoas cotidianamente podem ser vistos sob uma nova ótica, tornando a existência mais leve.
Além das causas externas, a legista explica que o corpo, mesmo após a morte, fornece um rico histórico da vida de uma pessoa. “Eu sei se a pessoa fumava, se bebia, se era usuária de cocaína, se tinha pressão alta, se era sedentária [pela necropsia]”, detalha. Essa capacidade de leitura do corpo a levou a expandir suas discussões para hábitos de saúde, incentivando os seguidores a se escutarem mais. Os temas que geram mais controvérsia e comentários negativos são aqueles que abordam os efeitos nocivos de substâncias como álcool, cocaína, vape e anabolizantes, evidenciando a falta de informação sobre seus riscos.
Feminicídio e a dor do luto: a missão de informar
Entre os casos mais impactantes que chegam ao IML, Cristine destaca os de feminicídio. Ela descreve os corpos marcados por uma violência que transcende o esperado, ressaltando que recebe pelo menos um caso desse tipo em cada plantão semanal. Apesar da dureza do trabalho, a motivação para continuar compartilhando conhecimento reside na carência de informação sobre a finitude e o que ocorre após a morte em seus aspectos físico e prático. A interpretação de certidões de óbito é uma das perguntas mais frequentes de seus seguidores.
Para Cristine, desmistificar a morte e fornecer informações claras sobre os processos que a envolvem é fundamental para auxiliar na elaboração do luto e para que a sociedade compreenda a naturalidade do fim da vida. “O objetivo é realmente explicar e aprender — porque a morte ensina, os corpos ensinam. Falar sobre isso torna a existência um pouco mais leve”, conclui a médica legista que, com sua atuação nas redes sociais, transforma o tabu da morte em uma conversa aberta e informativa.
