Zolpidem: o remédio para insônia que se tornou um problema de saúde pública no Brasil
Zolpidem: o remédio para insônia que se tornou um problema de saúde pública no Brasil

Zolpidem: o remédio para insônia que se tornou um problema de saúde pública no Brasil

O zolpidem, um dos medicamentos mais prescritos para insônia no Brasil, tem levantado preocupações devido ao seu uso indiscriminado e aos riscos associados. O que antes era uma solução para noites insones transformou-se em um problema de saúde pública, com relatos de casos extremos e aumento na comercialização, impulsionado pela expiração da patente e o […]

Resumo

O zolpidem, um dos medicamentos mais prescritos para insônia no Brasil, tem levantado preocupações devido ao seu uso indiscriminado e aos riscos associados. O que antes era uma solução para noites insones transformou-se em um problema de saúde pública, com relatos de casos extremos e aumento na comercialização, impulsionado pela expiração da patente e o surgimento de versões genéricas.

O médico Vitor Piva, de 34 anos, exemplifica os perigos do uso inadequado do zolpidem. Após um plantão exaustivo, ele tomou múltiplas doses do medicamento para tentar dormir, resultando em um episódio de sonambulismo que o levou a cair da sacada de seu apartamento no sétimo andar. O incidente, que o deixou em estado grave na UTI e resultou na amputação de uma perna e perda da visão, foi posteriormente associado pela polícia ao uso de zolpidem e seus efeitos colaterais como alucinações e parassonias.

O caso de Piva, que ilustra a vulnerabilidade a efeitos colaterais como sonambulismo e amnésia, destaca um cenário preocupante no país. Lançado no Brasil nos anos 1990, o zolpidem, um sedativo hipnótico para insônia de curto prazo, teve sua popularidade disparada a partir de 2007. Estudos indicam que a insônia afeta até um terço dos brasileiros, e o tratamento medicamentoso, muitas vezes por automedicação, é comum, com hipnóticos, como o zolpidem, sendo os mais consumidos.

As informações foram reunidas a partir de reportagens da DW Brasil.

A banalização do uso e o aumento da comercialização

Alexandre Pinto de Azevedo, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta a banalização do uso do zolpidem como o principal problema. Ele ressalta que, embora eficaz quando indicado corretamente, o medicamento passou a ser visto como um indutor de sono de baixo risco, sendo prescrito de forma descuidada. Essa percepção equivocada contribuiu para um aumento expressivo nas vendas, especialmente a partir de 2020, com a comercialização ultrapassando a marca de 23 milhões de caixas em um único ano, levando profissionais de saúde a alertarem sobre uma possível “epidemia de zolpidem”.

Os riscos associados ao zolpidem incluem dependência química, crises de abstinência, amnésia, sonambulismo e delírios. Esses efeitos, que podem ser atípicos em doses e prazos recomendados, tornam-se corriqueiros com o uso inadequado. A combinação com álcool ou outros depressores do sistema nervoso central potencializa esses perigos. A tolerância ao medicamento aumenta facilmente, levando muitos pacientes a consumir doses muito superiores às recomendadas, por vezes cinco, seis ou até oito vezes a dose máxima diária de 10 mg.

Restrições da Anvisa e o mercado ilegal

Diante do cenário de alto consumo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) implementou medidas restritivas. Desde agosto de 2024, o zolpidem passou a exigir receita azul, um tipo de prescrição reservada a medicamentos com potencial de dependência, e sua venda só pode ser feita presencialmente. Essa mudança resultou em uma queda nas vendas oficiais, que caíram para cerca de 13,5 milhões de caixas no ano passado.

No entanto, as restrições não eliminaram o problema, pois o mercado ilegal de medicamentos sem prescrição médica, que já existia, se fortaleceu. Sandra Doria Xavier, do Instituto do Sono de São Paulo, alerta que o mercado paralelo no Brasil é significativo, com pacientes dependentes utilizando receitas falsificadas ou buscando farmácias irregulares para obter o medicamento. Essa situação impede a conclusão de que o abuso do zolpidem foi resolvido.

Novas diretrizes e a busca por alternativas

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) classificou o uso inadvertido do zolpidem como um problema de saúde pública e publicou uma nova diretriz clínica nacional. O documento enfatiza que a terapia cognitivo-comportamental, incluindo higiene do sono e regulação de horários, é a abordagem indicada para tratar as causas da insônia. Para o uso do zolpidem, a orientação é que seja temporário e que sua retirada ou troca seja acompanhada por um médico, devido ao risco de crises graves.

Alan Eckeli, neurologista e professor da USP de Ribeirãp Preto, um dos responsáveis pela diretriz, ressalta que o problema do uso indevido do zolpidem é quase exclusivo do Brasil, possivelmente relacionado à formação médica deficitária em queixas do sono. Ele destaca a importância de orientações mais detalhadas aos médicos sobre o tratamento da insônia e o uso de hipnóticos.

Apesar das restrições, Eckeli nota que os pacientes estão mais conscientes dos riscos, e muitos que buscam ajuda especializada demonstram receio em relação ao zolpidem e desejam interromper o uso. O médico Vitor Piva, após sua grave experiência, tornou-se um porta-voz dos perigos do medicamento, aconselhando amigos a evitarem seu consumo e lamentando o uso inadequado que ele mesmo fez. Ele segue em processo de recuperação, com esperança de reaver a visão.

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