O cosmos, muitas vezes imaginado como um palco de maravilhas pacíficas, esconde uma natureza selvagem e voraz. Recentemente, a revista Nature Astronomy publicou descobertas independentes de dois sistemas estelares onde o canibalismo se tornou realidade, com estrelas menores sendo devoradas por suas companheiras. Estes achados lançam nova luz sobre a complexidade e a brutalidade que podem ocorrer em interações estelares.
Longe da ordem aparente de nosso próprio Sistema Solar, onde planetas orbitam em trajetórias definidas, o Universo apresenta cenários onde a proximidade extrema pode levar a devoração. Um desses casos, detalhado por Aaron Householder do MIT, envolve uma estrela anã vermelha em um abraço íntimo e destrutivo com uma anã marrom. O sistema binário, catalogado como ZTF J0440+2325, completa uma órbita em meros 87 minutos, um tempo menor que a volta da Estação Espacial Internacional ao redor da Terra, apesar de ambos os corpos serem maiores que Júpiter.
Acredita-se que uma ponte de gás ligue as duas estrelas, permitindo que a anã vermelha sugue gradualmente a matéria da anã marrom. Este fenômeno, embora teoricamente esperado em fases finais da vida de estrelas massivas que se tornam gigantes vermelhas – como o Sol fará em cerca de seis bilhões de anos, engolindo possivelmente a Terra –, é considerado surpreendente neste contexto de estrelas de baixa massa. A observação inédita sugere que esse ‘canibalismo’ pode se estender por bilhões de anos, dada a longevidade das anãs vermelhas.
Um cadáver estelar em processo de digestão
Em uma narrativa igualmente dramática, mas envolvendo um estágio mais avançado de morte estelar, Jamie Williams da Universidade de Warwick e sua equipe identificaram a estrela anã branca HS 0209+0832. Anãs brancas são os remanescentes densos de estrelas que já esgotaram seu combustível nuclear e ejetaram suas camadas externas, um destino que aguarda nosso Sol no futuro. A observação deste ‘cadáver estelar’ com telescópios como o Hubble e o satélite TESS revelou uma composição química incomum, rica em elementos pesados, e uma oscilação de brilho a cada 4,39 dias, indicando a presença de um planeta gigante.
Este planeta, teoricamente formado após a anã branca ter entrado em sua fase final, seria um mundo de segunda geração. Embora a descoberta de planetas em torno de pulsares – remanescentes estelares mais massivos – não seja inédita, a configuração em torno de uma anã branca e a composição química da estrela sugerem um cenário onde a própria anã branca está canibalizando a matéria deste planeta gigante. Esses achados, publicados na mesma edição da Nature Astronomy, abrem novas fronteiras para a compreensão da evolução de sistemas estelares binários de baixa massa, onde a dinâmica pode ser significativamente mais caótica do que em nosso familiar Sistema Solar.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Nature Astronomy.