A eletroacupuntura demonstrou ser eficaz em aliviar a dor persistente após o herpes-zóster, uma complicação conhecida como neuralgia pós-herpética. A técnica, que combina acupuntura com estímulos elétricos de baixa frequência, mostrou reduzir significativamente a intensidade da dor em quase metade dos pacientes em um ensaio clínico recente, publicado no JAMA Neurology. A pesquisa envolveu 448 participantes e sugere uma nova esperança para indivíduos que sofrem com essa condição debilitante, que pode durar meses ou até anos.
A neuralgia pós-herpética é uma sequela comum do herpes-zóster, popularmente chamado de cobreiro. Essa condição afeta entre 10% e 18% das pessoas que contraem o vírus, o mesmo da catapora. Após a fase aguda da doença, onde as lesões na pele se manifestam, o vírus adormecido pode ser reativado, especialmente em idosos ou em indivíduos com sistema imunológico comprometido. Em muitos casos, a dor intensa persiste mesmo após a cicatrização das lesões cutâneas, devido a danos nas fibras nervosas que levam a sinais elétricos anormais interpretados pelo cérebro como dor.
Os sintomas da neuralgia pós-herpética podem variar desde sensação de queimação, pontadas e choques, até perda de sensibilidade. O simples toque de roupas ou lençóis pode se tornar insuportável. O tratamento convencional, que inclui medicamentos como gabapentina e pregabalina, antidepressivos e terapias tópicas, muitas vezes proporciona apenas alívio parcial e pode ser limitado por efeitos colaterais, especialmente em idosos, que frequentemente já utilizam múltiplos medicamentos e possuem outras comorbidades.
Uma Nova Abordagem Terapêutica
Diante das limitações dos tratamentos tradicionais, a eletroacupuntura emerge como uma alternativa promissora. Diferentemente da acupuntura convencional, onde as agulhas são estimuladas manualmente, a eletroacupuntura utiliza um aparelho para enviar pulsos elétricos através de pares de agulhas inseridas em pontos específicos do corpo. No estudo, os participantes receberam sessões de 30 minutos, cinco vezes por semana, durante um mês, com a intensidade da corrente ajustada para provocar uma discreta contração muscular.
Os resultados indicaram que 46,7% dos pacientes tratados com eletroacupuntura experimentaram uma redução de pelo menos 30% na intensidade da dor. Em comparação, apenas 24,3% do grupo que recebeu um procedimento simulado (placebo) alcançaram o mesmo nível de melhora. O neurologista Marcel Simis, do Einstein Hospital Israelita, ressalta que uma redução de 30% é considerada clinicamente relevante em estudos de dor crônica, pois representa uma melhora perceptível para o paciente.
Mecanismos e Limitações do Tratamento
O mecanismo exato pelo qual a eletroacupuntura alivia a dor neuralgiforme ainda não é totalmente compreendido. Uma hipótese sugere que a estimulação elétrica pode interferir na transmissão dos sinais de dor e ativar os mecanismos naturais de controle da dor do corpo, agindo mais na forma como o sistema nervoso processa a dor do que na regeneração do nervo danificado. Os benefícios observados no estudo persistiram durante o período de acompanhamento após o tratamento, sem o registro de eventos adversos clinicamente significativos.
No entanto, é importante notar que o estudo teve um seguimento relativamente curto e os participantes eram majoritariamente de origem chinesa. Pesquisadores enfatizam a necessidade de novas pesquisas em populações mais diversas para confirmar a eficácia e segurança da eletroacupuntura. Atualmente, a técnica é vista como um tratamento complementar, especialmente útil para pacientes que não respondem adequadamente aos medicamentos ou que sofrem com seus efeitos colaterais. A eletroacupuntura também pode ser uma opção interessante para idosos, reduzindo a necessidade de analgésicos e a exposição a medicamentos com potenciais efeitos adversos como tontura e confusão mental.
A prevenção do herpes-zóster, e consequentemente da neuralgia pós-herpética, é feita principalmente através da vacinação. No Brasil, a vacina recombinante é recomendada para pessoas com 50 anos ou mais e para indivíduos com 18 anos ou mais que apresentem comprometimento imunológico ou maior risco da doença, estando disponível na rede particular.
