A reviravolta que definiu o pleito fluminense
Em um cenário político frequentemente marcado por previsibilidades, Douglas Ruas (PL) emergiu como a principal surpresa do primeiro turno no Brasil. O deputado estadual fluminense, até o final do ano passado praticamente desconhecido em âmbito nacional, foi oficializado governador do Rio de Janeiro após a retotalização de votos pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ). A decisão evitou a necessidade de um segundo turno contra o favorito Eduardo Paes (PSD), consolidando uma vitória improvável.
A trajetória de Ruas rumo ao Palácio Guanabara ganhou contornos dramáticos após a prisão de Rodrigo Bacellar (União Brasil), então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Este evento catapultou o deputado estadual para o centro das estratégias do PL no estado, especialmente com o endosso de Flávio Bolsonaro, tornando-o a aposta principal do partido para a chefia do executivo fluminense.
A ascensão de Ruas é notável considerando que, na véspera do primeiro turno, pesquisas como a Quaest indicavam uma vantagem considerável para Eduardo Paes, com 49% dos votos válidos contra 40% de Ruas. Levantamentos anteriores, como o de 25 de agosto, mostravam Paes com 37% das intenções de voto e Ruas com apenas 14%. No entanto, nas urnas, Ruas obteve 49,2% dos votos válidos, sendo declarado vencedor dias após a votação, após a decisão do TSE de anular os votos de Anthony Garotinho (Republicanos).
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), Quaest e reportagens do G1.
De subsecretário a governador: a trajetória de Douglas Ruas
Douglas Ruas, aos 37 anos, possui uma carreira ligada à administração pública e à segurança. Policial civil de formação e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson (PL), Ruas acumulou experiência em diversas frentes no município. Ele atuou como subsecretário de Trabalho, liderou a superintendência regional do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e esteve à frente da Secretaria de Gestão Integrada e Projetos Especiais. Sua entrada na política estadual se consolidou com a eleição para deputado estadual, onde obteve 175.977 votos, tornando-se o segundo mais votado em 2022.
Seu alinhamento com o governador Cláudio Castro (PL) o levou a ser nomeado secretário das Cidades do estado do Rio de Janeiro durante o segundo mandato de Castro. Em março deste ano, após o PL anunciar sua pré-candidatura ao governo, Ruas retornou à Alerj, preparandose para a disputa eleitoral.
A crise institucional que abriu caminho para o PL
A candidatura de Douglas Ruas também foi moldada por uma série de crises institucionais que afetaram o cenário político fluminense. Os planos iniciais do PL, que envolviam Rodrigo Bacellar, foram desestabilizados por um rompimento político com Cláudio Castro. Uma manobra que visava viabilizar a candidatura de Castro ao Senado acabou por criar uma crise sucessória, com Bacellar sendo nomeado para uma posição estratégica no Executivo.
A situação se agravou com a prisão de Bacellar, sob suspeita de vazamento de informações sobre operações policiais em benefício de figuras ligadas a facções criminosas. A crise atingiu seu ápice em março deste ano, quando Cláudio Castro renunciou ao governo para disputar o Senado, buscando evitar uma cassação por abuso de poder. Contudo, tanto Castro quanto Bacellar foram posteriormente condenados pelo TSE à perda dos direitos políticos por oito anos.
A sucessão turbulenta na Alerj e a eleição suplementar evitada
Com a dupla vacância no governo do estado, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), Ricardo Couto, assumiu interinamente. Nesse contexto, Douglas Ruas foi eleito presidente da Alerj em abril, o que o colocaria na linha sucessória para assumir o governo e potencialmente disputar as eleições de 2026 a partir de uma posição de destaque. No entanto, Eduardo Paes chegou a defender a realização de uma eleição suplementar para o cargo.
O caso foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas com a proximidade das eleições de 2026, Ricardo Couto permaneceu como governador interino até a posse do novo mandatário. A declaração de vitória de Ruas no primeiro turno, após a anulação dos votos de Garotinho, que somou 3,1% dos votos válidos, garantiu ao candidato do PL os 50% necessários para evitar a ida às urnas novamente, consolidando sua surpreendente ascensão.
O cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, aponta que a migração de eleitores indecisos, que compunham uma parcela significativa no Rio de Janeiro, pode ter sido decisiva nas últimas 48 horas da campanha. Segundo Nunes, esses eleitores teriam se direcionado a Douglas Ruas ao percebê-lo como o candidato alinhado à figura de Flávio Bolsonaro.
