Marcelo Kayath, nome cogitado para comandar o Ministério da Fazenda em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, enfrenta resistência em setores da base bolsonarista. Sua trajetória e declarações passadas, incluindo apoio a Luiz Inácio Lula da Silva e críticas ao atual presidente, geram desconfiança, apesar de contar com o respaldo de Eduardo Bolsonaro. O mercado, contudo, demonstra apostar no perfil técnico do ex-banqueiro.
A possibilidade de Marcelo Kayath assumir a pasta da Fazenda em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro tem gerado burburinho e apreensão entre os apoiadores mais fiéis do presidente. Kayath, que já presidiu o Credit Suisse no Brasil e hoje é sócio da gestora QMS Capital, é visto por alguns como uma escolha técnica para a economia. No entanto, seu histórico político e declarações públicas criam um obstáculo significativo para sua aceitação na base governista.
As declarações que mais pesam contra Kayath ocorreram em 2022. Naquele ano, ele declarou publicamente seu voto em Luiz Inácio Lula da Silva e chegou a classificar Jair Bolsonaro como “maluco”. Essas manifestações contrariam o discurso da ala mais conservadora do bolsonarismo e alimentam a resistência interna, mesmo com a articulação favorável de Eduardo Bolsonaro.
As informações sobre a possível indicação e as reações na base foram reunidas a partir de reportagens divulgadas pela imprensa especializada em economia e política.
O Plano Econômico de Kayath e o Cenário Atual
O programa econômico defendido por Marcelo Kayath prega um ajuste fiscal que vá além de cortes em despesas não obrigatórias, focando também nas despesas obrigatórias. Essa visão surge em um contexto de desafios fiscais para o país, com o déficit nominal do setor público em torno de 9,5% do PIB nos 12 meses até agosto. A inflação, que se encontra em 4,58% ao ano, acima do teto da meta de 3%, tem levado o Banco Central a manter a taxa Selic em patamares elevados, atualmente em 13,75% ao ano.
Em entrevista à Bloomberg, Kayath analisou que a recente onda de compras de ativos financeiros brasileiros após o primeiro turno das eleições reflete uma mudança nas expectativas dos investidores. Para ele, a consolidação da confiança do mercado depende da implementação rápida de reformas fiscais.
O Passado que Incomoda a Base
O desconforto com a figura de Kayath não é recente e se aprofunda com declarações antigas que evidenciam um distanciamento ideológico. Em julho de 2021, ao comentar a gestão do então ministro da Economia, Paulo Guedes, Kayath declarou ao Valor Econômico que “a Faria Lima gosta de se iludir” e que a percepção inicial positiva havia se dissipado com o tempo.
O ponto mais sensível, no entanto, foi a manifestação de voto em Lula em janeiro de 2022. Na ocasião, ele participou de encontros com empresários em apoio à candidatura petista, argumentando que Bolsonaro representava um risco fiscal maior do que Lula. Kayath chegou a citar o ajuste fiscal de 2003, sob o governo Lula, como exemplo de responsabilidade na condução das contas públicas, e afirmou que a esquerda não detinha o “monopólio do bem”, ao mesmo tempo em que criticava Bolsonaro, chamando-o de “maluco”.
