A testosterona, hormônio associado à masculinidade, tem despertado crescente interesse no universo feminino, especialmente para aliviar sintomas da menopausa. Contudo, a sua utilização em mulheres ainda é um campo em desenvolvimento, marcado por evidências promissoras, mas também pela necessidade de cautela e mais estudos. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The Conversation.
Embora seja amplamente conhecida como o hormônio masculino por excelência, a testosterona é produzida em menores quantidades tanto nos ovários quanto nas glândulas suprarrenais das mulheres. Ela desempenha funções vitais em diversos tecidos, incluindo ossos, músculos, coração, vasos sanguíneos e cérebro, sendo também precursora do estradiol, o principal estrogênio feminino. Ao longo da vida reprodutiva, os níveis de testosterona diminuem gradualmente, um processo que se estende para além da menopausa, ao contrário do estrogênio, que tem uma queda mais acentuada nesse período.
A dificuldade em definir os níveis considerados “normais” de testosterona em mulheres reside nas baixas concentrações sanguíneas, que historicamente desafiaram a precisão dos exames de laboratório. Essa complexidade na medição, aliada à escassez de produtos específicos para o público feminino, tem levado algumas mulheres a buscar alternativas, como a utilização de géis de testosterona destinados a homens, muitas vezes em doses improvisadas e menos precisas.
Testosterona e o Desejo Sexual: Evidências e Limitações
A aplicação mais estudada da testosterona em mulheres é no tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), caracterizado por um desejo sexual persistentemente baixo que causa sofrimento. Uma metanálise de 2019, compilando 36 estudos randomizados, indicou que a testosterona, em doses controladas, pode melhorar o desejo e a satisfação sexual em algumas mulheres na pós-menopausa. Diretrizes clínicas internacionais reconhecem a terapia com testosterona como um tratamento baseado em evidências para o TDSH, sendo esta a única condição feminina com suporte científico suficiente para tal recomendação.
É crucial ressaltar que o desejo sexual é multifatorial, influenciado por relacionamentos, estresse, cansaço e saúde mental, com a testosterona sendo apenas um dos elementos. Para além da função sexual, as evidências provenientes de ensaios clínicos de alta qualidade em mulheres são limitadas. No entanto, isso não descarta a possibilidade de a testosterona ter um impacto mais amplo na saúde feminina, como sugerem relatos de pacientes e médicos.
Benefícios Relatados e a Necessidade de Mais Pesquisa
Mulheres e profissionais de saúde que utilizam testosterona na rotina de cuidados com a menopausa relatam benefícios que extrapolam a esfera sexual. Um estudo recente no Reino Unido, com 510 mulheres em uma clínica especializada, observou melhorias no humor, nos sintomas cognitivos e na libido após quatro meses de uso de gel de testosterona. Embora esses achados sejam encorajadores, eles não estabelecem uma relação causal direta.
A testosterona não substitui a terapia hormonal convencional para a menopausa, sendo frequentemente utilizada em conjunto com estrogênio e, por vezes, progesterona. Algumas mulheres relatam que, mesmo com a terapia de reposição hormonal otimizada, a adição de testosterona trouxe uma melhora perceptível em sintomas persistentes. Essas observações clínicas, embora não substituam estudos randomizados, podem direcionar futuras pesquisas para investigar esses efeitos em ensaios clínicos controlados.
Um Mercado em Adaptação e os Riscos do Uso Impróprio
Apesar das evidências, o desenvolvimento de produtos de testosterona especificamente formulados para mulheres tem avançado lentamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, ainda não há nenhum produto aprovado para esse fim. A Austrália se destaca com o lançamento do Androfeme, um creme de testosterona registrado em 2020 para uso feminino.
A prática de utilizar o gel masculino de forma improvisada, separando visualmente uma fração da dose, representa um desafio. A dosagem terapêutica da testosterona em mulheres é muito pequena, e o uso incorreto pode levar a níveis hormonais acima da faixa desejada, aumentando o risco de efeitos colaterais como acne e crescimento indesejado de pelos faciais ou corporais. Além disso, a segurança do uso de testosterona em mulheres a longo prazo, especialmente em relação a doenças cardíacas, acidente vascular cerebral e câncer de mama, ainda requer investigações mais aprofundadas, pois os estudos existentes são majoritariamente de curta duração e frequentemente excluem mulheres com maior risco para essas condições.
