Apneia obstrutiva do sono, condição que causa interrupções na respiração durante o sono, tem forte ligação com a hipertensão e seu tratamento pode ser um aliado no controle da pressão arterial.
A apneia obstrutiva do sono, caracterizada pelo relaxamento dos músculos da garganta que leva ao estreitamento das vias aéreas e à dificuldade de respirar, afeta significativamente a saúde cardiovascular, especialmente em indivíduos hipertensos. A condição é particularmente prevalente entre pessoas com pressão alta, atingindo entre 30% e 50% delas. Em casos de hipertensão resistente, a porcentagem sobe para 60% a 90%, podendo chegar a 95% na hipertensão refratária. Segundo o cardiologista Eduardo Segalla de Mello, do Einstein Hospital Israelita, a apneia é considerada um fator de risco independente para hipertensão, dobrando o risco em comparação com quem não a possui.
A relação entre as duas condições se dá por meio de alterações fisiológicas. As paradas respiratórias momentâneas durante o sono causam quedas e elevações rápidas nos níveis de oxigênio, resultando em microdespertares. Esse esforço respiratório contínuo pode desestabilizar a pressão arterial.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Agência Einstein.
Evidências científicas apontam para o benefício do tratamento da apneia
Um estudo brasileiro publicado em 2025 reforça a ideia de que o tratamento da apneia obstrutiva do sono pode complementar as terapias convencionais para a hipertensão. A pesquisa revelou que o controle do distúrbio respiratório contribui para a redução da pressão arterial em pacientes com hipertensão não controlada, mesmo quando estes utilizam medicamentos de forma adequada. O estudo acompanhou 123 pacientes com apneia e pressão arterial elevada, dividindo-os em dois grupos: um utilizou tiras dilatadoras nasais e o outro foi tratado com CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas).
O CPAP é um aparelho que, por meio de uma máscara, fornece um fluxo contínuo de ar, mantendo as vias aéreas abertas durante o sono e prevenindo as pausas respiratórias. Geraldo Lorenzi Filho, pneumologista e diretor do Laboratório do Sono do Instituto do Coração da USP, que coordenou o projeto, explicou que foi verificado o uso correto dos medicamentos anti-hipertensivos para garantir que os casos fossem realmente resistentes ao tratamento padrão.
Avaliações detalhadas e resultados promissores
Além da medição da pressão arterial periférica, comumente realizada em consultórios, o estudo incluiu avaliações de 24 horas e a medição da pressão arterial central, que reflete a pressão exercida pelo sangue diretamente na raiz da aorta e nas artérias próximas a órgãos vitais como cérebro e rins. Após seis meses, os pacientes que utilizaram CPAP apresentaram uma redução significativa da pressão arterial.
Os pesquisadores indicam que essa melhora no controle da pressão arterial pode diminuir o risco de complicações cardiovasculares graves associadas à hipertensão, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Mudanças no estilo de vida como complemento ao tratamento
Adicionalmente ao tratamento específico para a apneia, mudanças no estilo de vida também desempenham um papel importante no controle da condição e, consequentemente, da hipertensão. A perda de peso é apontada como um fator crucial. A prática de atividades físicas, além de auxiliar na redução de peso, contribui para a melhora da qualidade do sono, o que pode ter um impacto positivo no controle da pressão arterial.
