Tempo e custo impulsionam pesquisadores a recorrer a revistas predatórias
Tempo e custo impulsionam pesquisadores a recorrer a revistas predatórias

Tempo e custo impulsionam pesquisadores a recorrer a revistas predatórias

Pesquisadores brasileiros, pressionados pela necessidade de publicar e pela lentidão dos processos editoriais tradicionais, têm recorrido a revistas predatórias. Esses periódicos, que cobram taxas dos autores e prometem publicações rápidas, priorizam o lucro em detrimento da qualidade científica, segundo um estudo publicado na revista Scientometrics. A pesquisa, liderada pelo professor Fábio Lobato, do Instituto de […]

Resumo

Pesquisadores brasileiros, pressionados pela necessidade de publicar e pela lentidão dos processos editoriais tradicionais, têm recorrido a revistas predatórias. Esses periódicos, que cobram taxas dos autores e prometem publicações rápidas, priorizam o lucro em detrimento da qualidade científica, segundo um estudo publicado na revista Scientometrics.

A pesquisa, liderada pelo professor Fábio Lobato, do Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da USP São Carlos, analisou respostas de 1.065 cientistas. Os resultados indicam que a pressão por publicações, muitas vezes atrelada a concursos e financiamentos, é um fator chave para essa escolha. Além disso, a falta de suporte dentro das próprias universidades agrava o problema.

A ideia para o estudo surgiu após o próprio Lobato ter publicado em um periódico predatório, alertado por um colaborador internacional. Ele observou que esses periódicos costumam cobrar valores menores que publicações de alto impacto como Nature e Science, e prometem revisões em poucos dias ou semanas, além de utilizarem táticas agressivas de marketing por e-mail para atrair artigos.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por um estudo publicado na Scientometrics.

Fatores que levam à publicação em periódicos predatórios

O estudo dividiu a análise em duas etapas. A primeira, quantitativa, investigou as principais motivações dos pesquisadores, o conhecimento sobre o tema e a relação entre experiência internacional e a percepção sobre revistas predatórias. A segunda etapa, qualitativa, busca aprofundar as diversas respostas obtidas.

Lobato destaca que a pressão acadêmica por um grande número de publicações é um impulsionador significativo. “A gente validou uma percepção que já aparecia na literatura, que essa pressão por publicar leva parte dos pesquisadores a optar por esses periódicos. Ela vem acompanhada também de uma falta de suporte da própria comunidade acadêmica nas universidades”, afirma.

A pesquisa também revelou que pesquisadores de instituições federais e municipais tendem a publicar mais em revistas predatórias, enquanto cientistas com experiência internacional, como estágios no exterior, demonstram evitar esses periódicos. Surpreendentemente, a região geográfica não apresentou associação com a propensão a publicar em revistas predatórias, sugerindo que a vulnerabilidade ao fenômeno está disseminada em todo o território nacional.

Percepção e Desconhecimento

A análise qualitativa, ainda em andamento, aponta para uma percepção ainda incipiente sobre o que constitui uma revista predatória no Brasil. Alguns pesquisadores citaram a escolha baseada em listas de qualificação (Qualis) ou por indicação de orientadores. O estudo também indicou que não há correlação forte com o início de carreira; pesquisadores mais experientes também podem optar por esses periódicos, seja por desconhecimento ou outros motivos.

Lobato conduz ainda outra pesquisa com bolsistas de produtividade do CNPq, cujos resultados preliminares sugerem que o fenômeno não se restringe a cientistas em início de carreira, com pesquisadores experientes também sendo identificados publicando em tais revistas. O objetivo principal do levantamento, segundo o pesquisador, não é julgar os motivos dos cientistas, mas sim ampliar o debate e fomentar políticas públicas voltadas à integridade científica.

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