Projeto Inova no Tratamento da Obesidade no SUS
O Ministério da Saúde (MS) deu um passo significativo no combate à obesidade com o lançamento de um novo protocolo para o uso de canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa, que tem como foco a semaglutida, teve seu pontapé inicial no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, com a presença do Ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
O estudo, batizado de Real-Bari, acompanhará 250 pacientes que aguardam na fila para a cirurgia bariátrica. A pesquisa é uma colaboração entre o GHC, a Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Faurgs) e a farmacêutica Novo Nordisk, que juntos investirão cerca de R$ 1,2 milhão no projeto. Embora o protocolo comece a ser aplicado apenas no GHC, há a possibilidade de expansão para outros estados brasileiros.
O motorista de aplicativo Guilherme Henrique Panichi, 39 anos, foi um dos pacientes selecionados para participar do estudo. Ele relata uma longa jornada no controle de peso desde a infância, com complicações de saúde como diabetes e hipertensão. “Desde os seis anos venho sempre ganhando peso e já tinha feito acompanhamento com nutricionista, mas nunca com um efeito prolongado. Nos últimos anos, comecei a ter complicações bem graves, desenvolver diabetes, hipertensão, que hoje elas estão controladas com uso de medicamentos”, contou Panichi, que espera que as canetas emagrecedoras o auxiliem em uma transição para um estilo de vida mais saudável.
Alternativa Terapêutica e Impacto no Sistema de Saúde
A médica do Serviço de Endocrinologia do GHC, Kátia Elisabete Pires Souto, ressalta a importância de tornar medicamentos como a semaglutida acessíveis à população. “Que esse seja o passo inicial para que se possa colocar semaglutida e análogos que vem por aí para a população brasileira toda, porque a gente sabe que a obesidade é uma epidemia”, afirmou.
O protocolo no GHC terá duração inicial de dois anos e foi desenvolvido em colaboração com as equipes do MS, Faurgs e Novo Nordisk. Fernando Anschau, coordenador do Núcleo de Avaliação de Tecnologia em Saúde do GHC, explicou que o estudo foi concebido para coletar dados em “vida real”, observando como os pacientes lidam com a medicação no dia a dia. A expectativa é que o uso dessas canetas possa reduzir a necessidade de cirurgias bariátricas, ou permitir que pacientes que não se enquadram clinicamente para o procedimento cirúrgico possam se tornar aptos após o tratamento.
O Rio Grande do Sul possui uma das maiores taxas de obesidade do país, com mais de 33% dos adultos entre 20 e 60 anos apresentando sobrepeso, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde. A iniciativa surge como uma resposta a essa realidade, buscando oferecer uma nova ferramenta terapêutica.
Avaliação Clínica e Futuro da Produção Nacional
O protocolo, negociado há cerca de um ano, visa oferecer uma alternativa para os pacientes na fila da cirurgia bariátrica que não atendem a todos os critérios médicos para o procedimento. Atualmente, apenas 47% dos pacientes na fila do GHC estão aptos para a cirurgia. Os participantes do estudo receberão semanalmente 2,4 miligramas de semaglutida, com o acompanhamento focado na perda de peso, qualidade de vida e condições clínicas para a cirurgia.
O Ministro Padilha também abordou a questão da produção nacional de medicamentos como a semaglutida. Com a expiração da patente do Ozempic e a aprovação de versões sintéticas por empresas como EMS (Ozivy) e a futura chegada do Semavy pela Hypera Pharma, o governo busca viabilizar a distribuição em larga escala. “Senão você não tem sustentabilidade dessa oferta. Por isso, é o segundo desafio que já estamos enfrentando quando o Ministério da Saúde e a Anvisa convocam empresas para registrar esse produto aqui”, declarou o ministro.
Padilha alertou ainda para o uso indiscriminado e contrabandos das canetas emagrecedoras, enfatizando que se trata de uma medicação desenvolvida inicialmente para diabetes e que sua aplicação para obesidade ainda está em fase de observação e regulamentação. A produção nacional é vista como uma estratégia para melhor regularizar o uso e o acesso a esses tratamentos.
