A complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS) vai além do debate sobre a falta de recursos. Especialistas apontam a regionalização da gestão como um caminho fundamental para otimizar o atendimento e superar os desafios atuais.
O debate público e eleitoral sobre o SUS frequentemente se concentra na questão do financiamento, com a premissa de que mais verbas resolveriam os problemas do sistema. No entanto, uma análise aprofundada sugere que a solução é mais complexa e reside em uma reestruturação da gestão. A perspectiva é que, diante da dificuldade em aumentar significativamente o orçamento nos próximos anos, a pergunta central deveria ser se o modelo de financiamento atual ainda é capaz de atender às demandas de uma população em envelhecimento e com crescentes necessidades de cuidados crônicos e articulados.
O modelo vigente, embora tenha sido importante para a implantação e expansão do SUS, demonstra limitações frente às novas realidades. A vinculação de recursos ao pagamento por procedimentos e internações, por exemplo, foca na oferta de serviços, mas não na organização de uma rede de cuidados integrada. A gestão, e não o mero procedimento, é o que efetivamente organiza o sistema.
As informações foram reunidas a partir de análises publicadas no The Conversation.
Financiamento e a rede regional
A fragmentação do financiamento é um dos principais entraves. Em um cenário onde um hospital de pequeno porte consome recursos sem poder oferecer procedimentos de alta complexidade, a decisão de fechar a unidade e comprar serviços em outro local se torna complexa. A dificuldade reside em saber se o dinheiro acompanha o paciente ou permanece atrelado à estrutura municipal. Na maioria dos casos, ele permanece fixo, impedindo que o recurso seja direcionado para onde o cuidado é efetivamente realizado.
A proposta para superar esse impasse é fortalecer as regiões de saúde. Em vez de pulverizar recursos entre milhares de municípios, o financiamento deveria seguir uma lógica regional. Isso permitiria que as redes regionais decidissem conjuntamente onde concentrar hospitais, expandir ambulatórios, contratar serviços especializados e investir em atenção básica. Atualmente, o cidadão já utiliza essa rede de forma natural, mas a gestão administrativa permanece fragmentada, com cada município tentando resolver isoladamente os problemas de sua população.
Essa desarticulação gera conflitos de responsabilidade, onde prefeitos e governadores apontam uns para os outros, cada um administrando apenas sua parcela do sistema. As filas, muitas vezes vistas como consequência direta da falta de dinheiro, podem também ser um sintoma dessa fragmentação gerencial. Municípios e estados organizam suas próprias filas, e o paciente acaba entrando em múltiplas listas de espera, pois os sistemas não se comunicam.
Tecnologia e produção nacional: desafios adicionais
A incorporação de novas tecnologias, como inteligência artificial e telemedicina, tem potencial para melhorar a assistência. Contudo, sua eficácia é limitada se aplicadas a um sistema desorganizado. A falta de interoperabilidade entre sistemas de saúde, que muitas vezes obriga a repetir exames quando um paciente transita entre diferentes serviços, é um exemplo claro. A comunicação entre os sistemas, e não apenas a informatização isolada, é crucial.
A pandemia de COVID-19 também evidenciou a necessidade de uma política industrial robusta na área da saúde, com capacidade de produção de medicamentos, vacinas e equipamentos. A dependência externa demonstrou que ter recursos financeiros nem sempre garante o acesso a insumos essenciais, ressaltando a importância da segurança sanitária através da produção nacional.
A relação entre o SUS e a saúde suplementar também merece atenção. Longe de serem sistemas independentes, ambos se interligam. Usuários de planos de saúde recorrem ao SUS para serviços como vacinação e transplantes, enquanto cidadãos do SUS buscam o setor privado quando possível. A saúde, em sua integralidade, depende da prevenção, promoção, acompanhamento contínuo e integração entre todos os níveis de cuidado, algo que nenhum sistema isolado consegue oferecer.
O SUS, concebido há quase quatro décadas, precisa se adaptar às transformações demográficas, médicas e tecnológicas. A discussão eleitoral, portanto, deve ir além do montante de gastos, focando em como reorganizar o sistema para responder às necessidades atuais da população, com a regionalização da gestão como um pilar fundamental dessa transformação.
