Projeto Kilombinho oferece acolhimento e fortalecimento da identidade para jovens que sofrem com racismo e bullying.
Em São Paulo, o Projeto Kilombinho, desenvolvido pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Infantojuvenil 2 Ermelino Matarazzo, tem se tornado um importante espaço de acolhimento e desenvolvimento para crianças e adolescentes negros que vivenciam os efeitos devastadores do racismo em sua saúde mental. A iniciativa, ligada à Secretaria Municipal da Saúde, busca, por meio de atividades lúdicas e afrocentradas, promover o resgate da autoestima, o senso de pertencimento e o fortalecimento da identidade racial em jovens que muitas vezes não conseguem nomear os sentimentos gerados pelo preconceito.
O racismo, conforme relatos, manifesta-se de diversas formas no cotidiano dos jovens. A estudante Luísa, 14 anos, relembra episódios de comentários sobre sua aparência, como o tamanho dos lábios e a textura do cabelo, que a impedem de se ver de forma positiva. Luiz Leonardo da Silva Pereira, 18 anos, transforma suas vivências de discriminação, como ser confundido com um ladrão ou chamado de “macaco”, em arte, mas reconhece o impacto emocional que essas situações causam.
Esses testemunhos, coletados em um ambiente onde o racismo ainda é um tema desafiador para o cuidado em saúde mental, evidenciam a necessidade de abordagens específicas. O Kilombinho atua justamente nesse ponto, utilizando ferramentas como brinquedos, instrumentos musicais, tecidos africanos, literatura, cantigas e danças para ajudar os jovens a processar suas emoções. As oficinas de letramento racial, contação de histórias e músicas afrocentradas são elementos chave para ressaltar o protagonismo negro, a beleza e a ancestralidade.
A metodologia do projeto inclui uma “mala de viagem lúdica” com livros, bonecas negras, tecidos e acessórios da cultura africana, além de jogos de mesa e culinária com um olhar afrorreferenciado. As reuniões, conduzidas pela psicóloga Fabiana da Silva Galdino, idealizadora do Kilombinho, e outros profissionais de saúde, ocorrem em escolas públicas, Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Centros para Crianças e Adolescentes (CCAs), espaços comunitários e abrigos. Conversas individuais, familiares e em grupo complementam a ação.
O impacto do racismo na saúde mental e a importância do projeto
Fabiana da Silva Galdino destaca que o racismo afeta diretamente a saúde mental, resultando em quadros de ansiedade, depressão e automutilação, que aparecem com frequência no Caps Infantojuvenil 2. Ela ressalta que o Kilombinho surge como um espaço para enfrentar essas questões de forma lúdica, agregando autoestima, pertencimento, reconhecimento, identidade e autonomia aos jovens. O projeto também trabalha o letramento racial desde o acolhimento, ajudando crianças e famílias a compreenderem conceitos como identidade racial e a se assumirem como negros ou pardos de forma consciente.
O projeto nasceu em julho de 2024, impulsionado pelo aumento de casos de racismo e bullying que chegavam ao Caps, situações frequentemente confundidas pelas famílias. “As famílias pensam que tudo é bullying. Conforme analisamos cada situação, vemos que são questões de racismo. As crianças chegam aqui com baixa autoestima, não se gostam e nem se aceitam. Sofrem na pele e no corpo”, explica a psicóloga.
Luísa exemplifica o processo de aceitação que o projeto busca promover. “Vim aqui para saber mais sobre minha ascendência, entender que sou negra e bonita, e não importa o que as pessoas falam. Tenho que me aceitar.” A psicóloga relata casos como o de uma menina que se assustava com o cabelo black power da mãe e preferia bonecas brancas, mas que, com o acompanhamento do Kilombinho, passou a se aceitar e a se valorizar, reconhecendo-se em outras pessoas.
O Projeto Kilombinho, com apoio da associação civil Umane, demonstra a relevância de iniciativas que abordam as complexidades do racismo e seus impactos na saúde mental, oferecendo um caminho para que jovens negros construam uma relação mais saudável consigo mesmos e com sua identidade.
