A incessante cobrança pela aparência e seus efeitos na saúde mental feminina
A apresentadora Rafa Brites expôs recentemente em suas redes sociais a disparidade de tempo e esforço dedicados à aparência entre homens e mulheres no ambiente de trabalho. Ela relatou que, mesmo exercendo a mesma função que seu marido, Felipe Andreoli, precisa chegar horas mais cedo para cuidar de cabelo e maquiagem, enquanto ele dispõe de seu tempo livre para lazer. Essa vivência, segundo ela, evidenciou o abismo existente na carga estética imposta às mulheres.
Apesar de ter consciência dessa realidade e de seus próprios privilégios, Brites confessa a dificuldade em se desvencilhar dessa pressão. A decisão de apresentar-se sem maquiagem, por exemplo, é complexa e individual, muitas vezes influenciada por expectativas sociais e profissionais. A escritora Naomi Wolf, em seu livro “O Mito da Beleza” (1991), já abordava como o culto à juventude feminina funciona como uma forma de controle social, utilizando as imagens de beleza contra as mulheres.
A atriz Flávia Alessandra, 52, compartilha dessa percepção, afirmando que a maioria das mulheres sente o peso da necessidade de corresponder a uma expectativa estética constante. “É como se a nossa aparência fosse um projeto sem fim”, descreve Alessandra, ressaltando a cobrança por juventude, beleza, magreza e impecabilidade. Contudo, com o amadurecimento, ela aprendeu a valorizar seu bem-estar e a entender que seu valor transcende a aparência física, buscando transmitir essa mensagem às suas filhas.
O impacto psicológico e financeiro dos padrões de beleza
A psicóloga Tassiane Valim explica que a busca pela perfeição estética representa uma sobrecarga adicional para as mulheres, que já lidam com diversas outras tarefas. A necessidade de depilação, manicure, cuidados com o cabelo e outras rotinas de aparência tornam-se tarefas intermináveis. Quando essas exigências não são cumpridas, é comum que as mulheres sejam julgadas como menos profissionais ou menos femininas, gerando culpa e ansiedade.
Valim destaca ainda o aspecto financeiro, uma vez que os cuidados com a aparência frequentemente envolvem gastos significativos. “Tudo isso impacta na saúde mental delas”, afirma a psicóloga, que observa que muitas mulheres sofrem até o esgotamento ao tentar preencher expectativas irrealistas, um fenômeno conhecido como “beauty burnout”.
Libertação e arrependimento em meio à cultura da beleza
A escritora Carina Luft, 54, vivenciou o “beauty burnout” durante mais de duas décadas de sua carreira como secretária-executiva. Além do tempo dedicado à sua aparência, ela gastava cerca de R$ 500 mensais com tratamentos estéticos, incluindo a constante pintura dos cabelos brancos por receio da reação da empresa. Atualmente, Luft sente-se em processo de libertação, embora ainda perceba resquícios da cobrança, como a necessidade de usar batom e máscara de cílios antes de sair de casa.
Luft também expressa arrependimento sobre um implante de silicone, realizado motivado pela pressão estética. “Hoje me pergunto por que fiz isso comigo”, lamenta. O Brasil lidera o ranking mundial em procedimentos de cirurgia plástica, com mais de 2 milhões de intervenções realizadas em 2024, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. A cirurgiã plástica Daniela Zavatini aponta razões culturais, como o clima, a moda e as atividades ao ar livre, que intensificam a observação do corpo e suas mudanças ao longo da vida.
O caminho para o bem-estar e a autoconfiança
Para a psicóloga Ana Maria, presidente da Isma-BR, o resgate da autoconfiança é fundamental para que as mulheres superem a pressão estética. Ao elevar a autoestima, elas percebem que o conforto e o bem-estar são mais importantes do que a busca por um padrão inalcançável. A boa notícia, segundo ela, é que “muitas estão acordando para isso”, indicando uma crescente conscientização e busca por uma relação mais saudável com a própria imagem.
