Primeiro porco clonado para xenotransplante na América Latina é eutanasiado na USP
O primeiro porco clonado geneticamente modificado do Brasil, parte de um ambicioso projeto da Universidade de São Paulo (USP) para viabilizar o transplante de órgãos suínos em humanos, foi eutanasiado no final de julho. O animal, nascido em março deste ano em Piracicaba, atingiu a maturidade sexual, momento considerado ideal para a captação de órgãos em tamanho adequado para uso em seres humanos. A decisão, segundo os pesquisadores, foi motivada também pela necessidade de contenção de gastos em um momento de incertezas financeiras para o projeto.
Batizado informalmente como o primeiro clone suíno da América Latina, o animal pesava 84 quilos quando foi eutanasiado aos quatro meses e quatro dias. Ele nasceu com 1,75 kg e demonstrou saúde e ausência de complicações decorrentes do processo de clonagem. A eutanásia, realizada em 28 de julho, marca um avanço na validação da técnica de clonagem desenvolvida pela equipe do Centro de Ciência para Desenvolvimento de Xenotransplante da USP (XenoBR).
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo XenoBR e por porta-vozes do projeto na USP.
Marco na pesquisa e desafios financeiros
Ernesto Goulart, pesquisador do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL) da USP e um dos coordenadores do projeto, destacou o nascimento do primeiro clone como um marco que comprovou a eficácia da técnica desenvolvida. No entanto, a continuidade da pesquisa enfrenta obstáculos significativos relacionados ao financiamento. A decisão de eutanasiar o animal antes do previsto, que seria por volta dos sete meses de vida, foi influenciada pela alta demanda de recursos para manutenção da infraestrutura, equipe e insumos.
“Tudo envolve custos, precisamos manter uma equipe, pagar insumos, manter a infraestrutura. E o projeto está em um momento em que precisamos fazer essa contenção de gastos para conseguir sobreviver até alguma liberação de recursos de projetos já aprovados, mas cujos pagamentos ainda não foram liberados”, explicou Goulart, ressaltando que a medida não comprometeu os dados principais da pesquisa nem o bem-estar do animal.
A escassez de verba também afeta diretamente a formação de novos pesquisadores. Mayana Zatz, geneticista do CEGH-CEL, lamentou a saída de muitos alunos de pós-graduação cujas bolsas de pesquisa acabaram. Essa situação pode comprometer o avanço de estudos que exigem longo prazo, como o xenotransplante, que nos Estados Unidos e China já é estudado há cerca de 30 anos.
Xenotransplante: o futuro dos transplantes?
O xenotransplante, técnica que consiste na utilização de órgãos de uma espécie em outra, é visto como uma alternativa promissora para suprir a demanda por transplantes. Os porcos são considerados doadores ideais devido à semelhança fisiológica com humanos e à sua rápida reprodução. No entanto, um dos principais desafios é a rejeição imunológica, que os pesquisadores buscam contornar através da edição genética para inativar genes suínos que causam rejeição e inserir genes humanos.
No Brasil, essa etapa de edição genética ainda não foi iniciada, aguardando liberação de recursos. O próximo passo crucial para o projeto da USP é a clonagem de embriões que já passaram por esse processo de modificação genética. Paralelamente, o grupo busca certificações de organismos geneticamente modificados junto à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).
Apoio institucional e destino do animal
A pesquisa conta com o apoio de agências como CNPq, Ministério da Saúde, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Fapesp e a própria USP. Contudo, a demora na liberação de verbas já aprovadas gera apreensão. A Fapesp informou que honra todos os apoios previstos em seu termo de outorga, incluindo 32 bolsas de pesquisa, e que um pedido de recursos adicionais está em análise. Já o Ministério da Saúde confirmou a liberação de R$ 6,15 milhões de um total aprovado de R$ 11,6 milhões, com repasses condicionados ao cumprimento de metas e disponibilidade orçamentária.
Após a eutanásia, o corpo do porco clonado foi encaminhado ao Museu de Zoologia da USP (MZUSP), onde será taxidermizado e integrado ao acervo expositivo. A expectativa é que o animal esteja em exibição até o final do ano, acompanhado de materiais informativos que visam desmistificar o processo científico e evidenciar sua complexidade e a importância da pesquisa para o avanço da medicina brasileira.
