Apesar de terem conquistado projeção política nos últimos anos, Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) ainda não conseguiram traduzir essa visibilidade em intenção de voto para 2026. Pesquisas recentes indicam que os três nomes, considerados opções da direita, enfrentam obstáculos para se firmarem como alternativas viáveis à liderança do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Pesquisas de opinião divulgadas recentemente apontam para um cenário de dificuldades na conversão de prestígio político em votos para o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Um levantamento do instituto Real Time Big Data, por exemplo, coloca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança com 40% das intenções de voto. Nesse contexto, Renan Santos e Ronaldo Caiado aparecem tecnicamente empatados, com 9% e 7% respectivamente, enquanto Romeu Zema registra 2%.
No entanto, em cenários de segundo turno, a disputa se mostra mais acirrada. Ronaldo Caiado é o único entre os três que aparece numericamente à frente de Lula, com 44% contra 43%, em empate técnico. Romeu Zema perderia para o petista por 44% a 38%, e Renan Santos registraria 35% contra 44% de Lula. Flávio Bolsonaro (PL) também aparece em cenário de segundo turno, empatado tecnicamente com Lula (42% a 45%). As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo instituto Real Time Big Data.
A Sombra de Bolsonaro e a Dificuldade de Construir Identidade Própria
Alexandre Manoel, economista da Global Intelligence and Analytics, aponta a forte liderança política de Jair Bolsonaro como o principal entrave para as aspirações de Caiado, Zema e Renan Santos. Segundo ele, Bolsonaro construiu uma relação com o eleitorado que transcende propostas, ancorada em identificação simbólica e política, especialmente com o segmento evangélico, que representa uma parcela significativa do eleitorado. Essa conexão, segundo Manoel, confere a Bolsonaro uma vantagem competitiva difícil de ser replicada.
Além disso, a imagem de Bolsonaro como opositor ao establishment político e como alvo de perseguição, tanto política quanto judicial, fortalece sua posição junto à base conservadora. Manoel ressalta que, embora boa gestão, ideias consistentes e experiência administrativa sejam atributos importantes, especialmente para atrair o eleitor moderado, eles não parecem ser suficientes para substituir a liderança construída por Bolsonaro junto ao núcleo mais fiel do eleitorado de direita. O desafio para Zema, Caiado e Renan Santos, portanto, reside em construir uma identidade própria sem se distanciar da base conservadora que ainda vê Bolsonaro como sua principal referência.
Prestígio Político Versus Capacidade de Mobilização Nacional
Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos, concorda que os três pré-candidatos possuem atributos notáveis, mas alerta que uma disputa presidencial exige mais do que boa reputação ou influência política. Ele destaca que Zema consolidou uma imagem de gestor eficiente em Minas Gerais, Caiado detém vasta experiência política e administrativa, e Renan Santos ganhou espaço no debate público. Contudo, Arruda enfatiza que ser bem avaliado em um estado, liderar um movimento ou ter influência no debate político são aspectos distintos de construir uma candidatura nacional, o que demanda tempo, presença em todo o país, articulação de alianças e uma narrativa capaz de dialogar com diferentes segmentos do eleitorado.
O analista também aponta que o momento político atual, com a direita ainda gravitando em torno da figura de Bolsonaro, dificulta a ocupação de um espaço próprio pelos demais pré-candidatos. Segundo Arruda, a real capacidade de transformar prestígio político em intenção de voto só poderá ser mensurada quando o cenário eleitoral estiver mais definido.
Desconhecimento Nacional e Limitações Regionais
O cientista político Paulo Kramer identifica o desconhecimento de Zema, Caiado e Renan Santos fora de seus estados de origem como outro fator crucial. Ele reitera que Bolsonaro permanece como a principal referência do conservadorismo brasileiro, enquanto os demais ainda lutam para alcançar projeção nacional. Kramer observa que a imagem positiva da gestão de Zema em Minas Gerais convive com problemas históricos em regiões mais pobres do estado, o que pode limitar sua expansão política. No caso de Caiado, sua longa trajetória no Congresso Nacional, uma instituição com pouca visibilidade para o eleitor comum, e o peso demográfico relativamente pequeno de Goiás no cenário nacional são apontados como desafios.
Kramer sugere que Caiado poderia ter investido mais cedo na projeção nacional de sua imagem, embora reconheça que isso poderia gerar críticas sobre seu foco em ambições presidenciais em detrimento de questões goianas. A escolha de Caiado pelo PSD para disputar a Presidência em 2026, após a desistência de Ratinho Junior, também é mencionada como um movimento que surpreendeu, considerando o esforço de Ratinho em construir projeção nacional ao longo de 2025. A metodologia da pesquisa Real Time Big Data envolveu a audição de 2.000 pessoas entre os dias 18 e 20 de julho, com nível de confiança de 95% e margem de erro de 2 pontos percentuais.
