A presença de animais de estimação tem se mostrado uma aliada valiosa para idosos, promovendo um envelhecimento mais ativo, socialmente conectado e emocionalmente saudável. No entanto, a decisão de trazer um pet para casa deve ser cuidadosamente ponderada, considerando as responsabilidades que essa convivência acarreta.
A experiência do escritor Fernando Machado, 83, após a perda de sua esposa, ilustra o impacto positivo que um animal pode ter. A companhia de seu cachorro, Brown, ajudou-o a superar a desorientação, incentivando-o a retomar atividades físicas, a interagir com outras pessoas durante os passeios e até a encontrar inspiração para escrever. Essa narrativa se alinha com descobertas de pesquisas que apontam a relação entre animais de companhia e um envelhecimento saudável, incluindo a manutenção da atividade física, dos vínculos sociais e do bem-estar emocional, além de um possível retardo no declínio cognitivo.
Cuidar de um pet pode estruturar o dia a dia e impulsionar hábitos que, de outra forma, poderiam ser menos frequentes. A psicóloga Tatiana Irigaray, pesquisadora dos efeitos da convivência com animais no envelhecimento, destaca a atividade física como um dos benefícios mais consistentes na literatura científica. No caso de cães, os passeios regulares incentivam caminhadas, a saída de casa e, consequentemente, a interação com outras pessoas. Luiza Favaro, 62, relata que os passeios diários com seus dois cães se tornaram um hábito que organiza sua rotina e funciona como um compromisso fixo.
A interação social facilitada pelos animais é outro ponto forte. Fernando conta que Brown, seu cachorro, frequentemente atrai a atenção de vizinhos, iniciando conversas e promovendo encontros. Um estudo conduzido pelo grupo de Irigaray indicou que idosos com animais de estimação demonstraram maior manutenção de atividades sociais, culturais e de lazer em comparação com aqueles sem pets. Contudo, o efeito varia conforme a qualidade do vínculo e as atividades proporcionadas pela convivência.
Companhia e Saúde Emocional no Envelhecimento
A presença de um animal de estimação pode ser um antídoto contra a solidão, um fator de risco associado à depressão, declínio cognitivo e mortalidade precoce em idosos. Pesquisas, como a da equipe de Irigaray, observaram menos sintomas depressivos em tutores de pets. No entanto, a pesquisadora ressalta que o animal não é uma cura para a depressão, e a qualidade do vínculo e o papel desempenhado pelo pet na vida do idoso são cruciais. Uma interação mais profunda e responsável tende a gerar maiores benefícios.
Estudos também investigam a possível ligação entre a convivência com animais e um declínio cognitivo mais lento. Pesquisas recentes sugerem que tutores de pets apresentaram um declínio mais lento em habilidades como memória, linguagem e planejamento. Contudo, os benefícios cognitivos podem estar mais relacionados ao estilo de vida ativo e socialmente engajado que a posse de um animal pode fomentar, do que diretamente pelo animal em si.
Responsabilidade e Cuidados Necessários
Apesar dos inegáveis benefícios, ter um animal de estimação exige tempo, recursos financeiros e disposição para cuidados como alimentação, higiene e acompanhamento veterinário. Dificuldades de mobilidade ou cognitivas podem tornar essas tarefas desafiadoras. A falta de uma rede de apoio também se torna um obstáculo, especialmente em casos de internação do tutor ou quando ele já não consegue mais assumir os cuidados sozinho. Luiza expressa essa preocupação, limitando suas saídas para não deixar seus cães sozinhos por muito tempo.
Especialistas como a terapeuta ocupacional Andressa Chodur recomendam que, ao considerar a adoção, é fundamental ponderar as necessidades tanto do idoso quanto do pet. A escolha do animal deve levar em conta fatores como tamanho, temperamento, nível de energia, idade e compatibilidade com o ambiente e a rotina do futuro tutor. A convivência só é benéfica quando não se torna uma sobrecarga, garantindo que a felicidade seja mútua, como aponta Fernando: “A companhia de um animal pode fazer muito bem a uma pessoa idosa, desde que também faça bem ao próprio animal.”
As informações foram reunidas a partir de relatos e estudos sobre a relação entre idosos e animais de estimação.
