O debate clássico entre natureza e ambiente ganha novas nuances com a introdução dos conceitos de “permitências” e “oportunidades”, que propõem uma visão mais dinâmica e interativa sobre o que nos torna quem somos.
Por décadas, a ciência e a filosofia debateram intensamente se nossas características e comportamentos são predominantemente definidos pela genética (natureza) ou pelas influências do ambiente e das experiências de vida (nurture). A descoberta de genes que influenciam aspectos como a preferência sexual intensificou essa discussão, levantando questões sobre livre-arbítrio e determinismo. Enquanto a genética pode ser vista como algo inato e, em certa medida, fora de nosso controle, a ideia de que comportamentos são puramente aprendidos ou escolhidos também gera debates complexos, especialmente quando se trata de identidades e escolhas individuais.
A neurociência tem avançado ao demonstrar que o que somos é, na verdade, uma intrincada interação entre nossa base genética e nossas ações ao longo da vida. No entanto, essa compreensão não encerrou a questão, mas a transformou em um desafio quantitativo: qual a proporção de nosso comportamento é inata e qual é aprendida? Esse questionamento levou à necessidade de novos termos para descrever a complexidade do desenvolvimento individual e da evolução das espécies.
A física estabelece as limitações fundamentais de tudo o que existe, baseadas nas interações de partículas e nas trocas de energia. Sobre essa fundação, a biologia emerge com a capacidade de autossustentação e auto-organização, gerando complexidade. É a partir dessa complexidade emergente que surgem novas propriedades, as chamadas “permitências”. Diferente da natureza, que é vista como imutável, a permitência é um conceito dinâmico. Ela representa as possibilidades concretas que a biologia nos oferece, como a flexibilidade comportamental proporcionada por um cérebro desenvolvido.
Essas permitências, como a capacidade de aprender e adaptar nosso cérebro através da educação, abrem portas para novas realidades e expandem nosso potencial. No entanto, as permitências por si só não são suficientes para moldar quem nos tornamos. Elas precisam ser ativadas e desenvolvidas através das “oportunidades”. Estas podem variar desde a disponibilidade de recursos básicos, como energia e nutrientes, até as circunstâncias sociais e ambientais que nos permitem agir e explorar nossas capacidades. Curiosamente, podemos utilizar nossas permitências para criar nossas próprias oportunidades, e, por sua vez, usar essas oportunidades para desenvolver novas permitências.
Assim, a visão de que somos moldados exclusivamente pela natureza ou pelo ambiente se mostra limitada. Somos seres em constante construção, definidos pela interação dinâmica entre as permitências biológicas que possuímos e as oportunidades que encontramos ou criamos ao longo de nossa existência. Essa perspectiva oferece uma compreensão mais rica e ativa do desenvolvimento humano e da evolução.
As informações foram reunidas a partir de conceitos elaborados por Suzana Herculano-Houzel em seu trabalho sobre evolução cerebral e flexibilidade comportamental.
