Globo abre mão de exclusividade na Copa pela primeira vez em décadas
A Copa do Mundo de 2026, que será sediada conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá, marcará um novo capítulo na história das transmissões esportivas no Brasil. Pela primeira vez desde 1970, a TV Globo não detém os direitos de transmissão de todas as partidas do torneio. A emissora optou por adquirir um pacote menor, com foco nos jogos da seleção brasileira e na fase final, enquanto o pacote completo, com mais de 100 jogos, foi adquirido pela LiveMode, empresa responsável pela Cazé TV. Essa decisão, segundo fontes internas e análises de mercado, é resultado de uma combinação de fatores financeiros, incluindo os impactos da pandemia e o crescente custo dos direitos de transmissão, além da ascensão do streaming e da concorrência digital.
A semifinal entre Espanha e França, por exemplo, foi transmitida no Brasil exclusivamente pela Cazé TV, assim como outros jogos de grande repercussão e histórias curiosas do Mundial de 2022. A emissora carioca, que exibiu 55 jogos da última Copa, viu a Cazé TV se consolidar como um player relevante no mercado, reescrevendo recordes de audiência em plataformas digitais como o YouTube. A performance da Cazé TV, que alcançou 23,9 milhões de dispositivos conectados simultaneamente em seu pico, demonstra uma mudança definitiva no consumo de mídia esportiva no país, com o digital assumindo um papel de protagonismo.
A decisão da Globo de não adquirir o pacote completo para 2026 não foi repentina. Sinais de distanciamento com a FIFA começaram em 2020, quando o Grupo Globo entrou na Justiça para renegociar o pagamento de US$ 90 milhões referentes ao contrato de direitos de transmissão entre 2015 e 2022. O objetivo era adequar os valores à realidade financeira impactada pela pandemia. Embora um acordo tenha sido alcançado em 2021, o cenário para o Mundial seguinte já indicava uma nova dinâmica, com a FIFA negociando direitos digitais separadamente.
As informações foram apuradas a partir de reportagens da Folha de S.Paulo e de declarações de executivos da LiveMode e da própria Globo.
Impactos financeiros e a ascensão do digital
A reestruturação financeira imposta pela pandemia de coronavírus foi um dos principais motivos para a mudança de estratégia da Globo. A emissora, assim como diversas outras empresas, precisou implementar cortes significativos em seus orçamentos, com uma meta de redução de R$ 1 bilhão anual. Esse cenário, aliado ao aumento exponencial dos custos de direitos de transmissão de grandes competições, especialmente da Copa do Mundo, tornou a aquisição do pacote completo um investimento de risco.
Os custos de transmissão da Copa do Mundo dispararam ao longo das décadas. Se em 1998 o valor total dividido entre cinco canais brasileiros girou em torno de US$ 19,4 milhões (em valores atuais), para os Mundiais de 2002 e 2006 a Globo desembolsou US$ 413 milhões. Na Copa de 2022, a FIFA arrecadou US$ 3,4 bilhões com a venda de direitos, valor que saltou para US$ 4,3 bilhões no torneio deste ano. Esse crescimento é impulsionado também pela entrada de gigantes digitais no mercado, como o Google (dono do YouTube), que firmou parceria com a LiveMode para a transmissão no Brasil.
Uma corrente interna na Globo sugere que houve um sacrifício de áreas tradicionais, como esporte e dramaturgia, a partir de 2017, em favor de investimentos no serviço de streaming Globoplay. No entanto, outra ala contesta essa visão, argumentando que os custos do Globoplay são significativamente menores do que os gastos com direitos de transmissão de campeonatos como o Brasileiro Série A.
Globo busca reequilíbrio e mira futuro
Em nota oficial, a Comunicação da Globo afirmou que a emissora “revisa suas dinâmicas, processos e estratégias frequentemente” e que, durante a pandemia, o objetivo foi “garantir o equilíbrio entre investimento e geração de valor”. Para a edição de 2026, a prioridade foi a aquisição de um pacote que inclui todos os jogos da seleção brasileira, a final e metade das demais partidas.
A emissora reconhece o ambiente de “forte concorrência”, que se expandiu da TV aberta para o streaming, e destaca que o desafio atual é conciliar o aumento dos custos dos direitos com a receita gerada por sua exploração. A Globo ressalta que seu investimento não se limita à compra dos direitos, englobando também qualidade técnica, equipes, talentos, criatividade, tecnologia e distribuição, visando entregar a melhor experiência ao público.
Apesar da perda da exclusividade em 2026, a TV Globo já demonstra interesse em recuperar os direitos integrais para a Copa de 2030 e também para a Copa Feminina de 2027, que ocorrerá no Brasil. A emissora busca reafirmar seu papel como principal veículo para a entrega de grandes eventos esportivos em massa para a FIFA.
A decisão de não comprar o pacote completo de jogos para a Copa de 2026 é atribuída por alguns a Jorge Nóbrega, ex-presidente-executivo do Grupo Globo. No entanto, outros interlocutores apontam que foi uma decisão colegiada, envolvendo acionistas e outros diretores chave do grupo, refletindo uma estratégia de longo prazo para o Grupo Globo em um mercado cada vez mais dinâmico e competitivo.
