A Terra já testemunhou cinco grandes extinções em massa, e um renomado paleontólogo sugere que a humanidade está trilhando um caminho perigoso rumo a uma sexta, autoinfligida. Michael J. Benton, professor da Universidade de Bristol e autor do livro “Extinções: Como a Vida Resiste, se Adapta e Evolui”, adverte que, ao contrário de outras espécies que sucumbiram a eventos naturais, a nossa é a única a criar ativamente as condições para seu próprio desaparecimento.
Com 4,5 bilhões de anos de história, a Terra viu o surgimento e o desaparecimento de inúmeras formas de vida. Os humanos modernos, com cerca de 300 mil anos de existência, representam uma fração minúscula desse tempo. Benton, em sua obra recém-publicada no Brasil, explora a dualidade das extinções em massa: eventos catastróficos que, embora destrutivos, também abriram espaço para a evolução e a diversificação da vida. No entanto, o paleontólogo é enfático ao afirmar que essa perspectiva evolutiva não deve ser interpretada como um salvo-conduto para a destruição ambiental atual.
“Nós não estaremos aqui para ver, uma vez que os humanos serão uma dessas espécies que vão desaparecer. O erro seria imaginar que a mensagem é: podemos continuar matando as espécies porque tudo dará certo depois”, ressalta Benton. Ele enfatiza que a recuperação da vida após grandes eventos extintivos levou milhões de anos, um tempo que a humanidade, em sua atual trajetória, pode não ter.
As Cicatrizes do Passado: Cinco Grandes Extinções
A história do planeta é marcada por cinco grandes episódios de extinção em massa. A primeira ocorreu há cerca de 444 milhões de anos, no final do Ordoviciano, quando uma era glacial severa levou ao recuo dos mares e ao desaparecimento de aproximadamente 85% das espécies, predominantemente marinhas. Seguiu-se o evento do Devoniano tardio (há 372 milhões de anos), uma crise prolongada de milhões de anos, associada a profundas mudanças ambientais e à redução de oxigênio nos oceanos, que dizimou cerca de três quartos das espécies.
O evento mais devastador foi a extinção do final do Permiano, há 252 milhões de anos, que aniquilou 95% de toda a vida, especialmente nos oceanos, mas também afetando organismos terrestres emergentes. A principal hipótese para essa catástrofe aponta para gigantescas erupções vulcânicas na Sibéria, que liberaram enormes quantidades de dióxido de carbono (CO₂), desencadeando um aquecimento global extremo e a acidificação dos oceanos. Benton considera este evento um modelo crucial para entender o presente, enfatizando o conceito de “hipertermal” – um aquecimento global prolongado – em vez de um impacto súbito de asteroide.
A quarta extinção, na transição do Triássico para o Jurássico (há 201 milhões de anos), eliminou cerca de 75% das espécies, novamente associada a eventos vulcânicos e mudanças climáticas globais. A quinta e mais famosa extinção, no final do Cretáceo (há 66 milhões de anos), foi causada pela queda de um meteoro, que gerou incêndios globais, bloqueio da luz solar e alterações climáticas drásticas, levando à extinção dos dinossauros e de grande parte da vida.
O Fantasma da Sexta Extinção e o Alarme Climático
Benton destaca que, com exceção da extinção dos dinossauros, as outras quatro foram majoritariamente ligadas a eventos hipertermais. Diante dos níveis alarmantes de aquecimento global pós-Revolução Industrial, muitos cientistas alertam que estamos vivendo uma sexta extinção em massa. A velocidade e a intensidade das mudanças ambientais atuais superam em muito os cenários históricos.
A atual crise da biodiversidade, com o desaparecimento acelerado de espécies devido à ação humana e às mudanças ambientais, preocupa o paleontólogo. Ele observa que, embora algumas espécies possam se adaptar a condições extremas, essa adaptação não significa bem-estar, mas sim uma luta pela sobrevivência em ambientes cada vez mais hostis. O aumento da temperatura global, que leva à acidificação dos oceanos, é um fenômeno que já está em curso e que se repete como um padrão em eventos extintivos passados.
A paleontologia, segundo Benton, não serve apenas para antecipar catástrofes, mas também para maravilhar e revelar a extraordinária diversidade da vida que já existiu. Olhar para o registro fóssil nos lembra da resiliência da vida, mas também da sua fragilidade diante de mudanças ambientais drásticas, muitas vezes impulsionadas por ciclos naturais da Terra, e, agora, pela ação humana.
As informações foram reunidas a partir de declarações do paleontólogo Michael J. Benton à Folha e de seu livro “Extinções: Como a Vida Resiste, se Adapta e Evolui”.
