A obesidade se tornou um desafio crescente para o Sistema Único de Saúde (SUS). Dados do Ministério da Saúde revelam que o número de brasileiros com obesidade atendidos na rede básica mais que triplicou em dez anos, apresentando um aumento de 259%. Em 2016, 3,09 milhões de pessoas com obesidade eram acompanhadas pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). Neste ano, esse número saltou para 11,12 milhões, representando 36% de todos os adultos assistidos pelo sistema.
Paralelamente, os casos de sobrepeso também registraram alta expressiva, passando de aproximadamente 4,19 milhões para 10,76 milhões no mesmo período, um crescimento de 156,8%. Somadas, as duas condições indicam que 21,88 milhões de adultos atendidos pelo Sisvan estão acima do peso considerado adequado, o que significa que 71,5% desse público apresenta excesso de peso.
O excesso de peso é classificado pelo Índice de Massa Corporal (IMC). Valores entre 25 e 29,9 indicam sobrepeso, enquanto um IMC igual ou superior a 30 caracteriza a obesidade, reconhecida como uma doença crônica, inflamatória e multifatorial. O cálculo do IMC é obtido pela divisão do peso pela altura ao quadrado.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Ministério da Saúde.
Desafios no Tratamento e Prevenção
Apesar do aumento expressivo de casos, o SUS enfrenta gargalos na assistência a pacientes com obesidade. O endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade, aponta a escassez de medicamentos e a falta de capacitação profissional como entraves significativos. Segundo ele, a rede pública carece de um protocolo de tratamento clínico unificado e abrangente, especialmente para quadros agudos de excesso de peso.
A cirurgia bariátrica, indicada apenas para casos de obesidade grave, não atende à maioria da população afetada. Além disso, o acesso ao procedimento é desigual, com filas de espera que variam consideravelmente entre as regiões do país. Mesmo para aqueles que conseguem realizar a cirurgia, o suporte pós-operatório, incluindo o fornecimento regular de suplementos, é frequentemente deficiente.
“Não há linhas de cuidado bem trabalhadas”, afirma Halpern, destacando que, embora existam iniciativas de excelência na abordagem de mudança de estilo de vida no SUS, falta uma estrutura consolidada. Ele também ressalta a pouca educação em obesidade entre os profissionais de saúde.
Panorama Estadual e Global
A tendência de aumento do excesso de peso é observada em todo o país. Em 24 das 27 unidades federativas, o número de adultos com obesidade em atendimento na atenção básica já supera o de pessoas com peso adequado. Em 18 estados, pelo menos 70% dos assistidos pelo SUS apresentam excesso de peso.
O Rio Grande do Sul lidera os índices nacionais, com 42,6% dos acompanhados apresentando obesidade e 75,9% com excesso de peso. São Paulo e Rio de Janeiro registram, respectivamente, 40,5% e 40,1% de pessoas com obesidade em atendimento. Minas Gerais contabiliza 1,16 milhão de casos (34,6%) e a Bahia, 735,3 mil (31,9%).
Em termos de taxa geral de excesso de peso, Rio Grande do Norte (75,5%), Amapá (74,5%) e São Paulo (74,3%) apresentam os maiores índices. A taxa nacional de obesidade subiu de 25,1% em 2016 para 36,4% atualmente, marcando a primeira vez que os registros de obesidade superaram os de sobrepeso.
A obesidade está associada a mais de 240 doenças, incluindo diversos tipos de câncer e problemas cardiológicos, além de reduzir a expectativa de vida. A capacidade dos sistemas de saúde em oferecer prevenção, acompanhamento e tratamento adequados foi um dos temas centrais do XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado em Salvador.
Em âmbito global, dados do estudo MAPPS II, da Federação Mundial da Obesidade, indicam que governos oferecem pouco apoio financeiro para o combate à doença, com notas baixas em uma escala de 1 a 10. Essa falta de verba, segundo Halpern, força pacientes a arcarem com os custos de tratamento, excluindo populações de baixa renda, especialmente em países em desenvolvimento.
O levantamento também identificou outras barreiras, como a falta de equipes multidisciplinares, a precariedade dos serviços públicos e o preconceito e estigma contra o excesso de peso, inclusive entre profissionais de saúde. Para combater a obesidade, Halpern defende ações simultâneas de prevenção, como políticas públicas que incentivem o consumo de alimentos naturais e desestimulem ultraprocessados, e de tratamento, com redes de cuidado efetivas para garantir qualidade de vida aos pacientes.
