A objetificação sexual, um viés perceptivo que trata indivíduos como corpos ou partes de corpos em vez de pessoas inteiras, pode ser mais maleável do que se pensava. Um estudo recente publicado na revista Social Neuroscience sugere que uma intervenção simples, como a aplicação de uma leve corrente elétrica na testa, pode modificar temporariamente a forma como percebemos imagens sexualizadas de mulheres. A pesquisa levanta a hipótese de que esse viés não é inato, mas sim um hábito que pode ser alterado.
Tradicionalmente, psicólogos medem a objetificação através de testes de reconhecimento de imagens invertidas. A capacidade de reconhecer rostos e corpos na posição correta é significativamente maior do que quando estão de cabeça para baixo, pois nosso cérebro processa a relação entre as partes. No entanto, estudos anteriores, incluindo um de 2012 e uma meta-análise de 2022, indicaram que essa “vantagem da posição correta” é menor para mulheres sexualizadas em comparação com homens sexualizados. Isso sugere que elas são percebidas mais como objetos, cujas partes individuais podem ser reconhecidas independentemente da configuração geral, do que como pessoas completas.
As implicações da objetificação sexual são profundas. Mulheres que são sexualmente objetificadas tendem a ser vistas como menos competentes e menos humanas, o que pode levar a uma pior autoimagem, problemas de saúde mental, física e sexual. Além disso, a exposição a conteúdos sexualizados na mídia tem sido associada a uma maior tolerância à violência sexual contra mulheres. Fatores como o desfoque de certas partes do corpo ou a atribuição de competências profissionais às mulheres nas imagens podem mitigar esse viés, assim como a sensação de poder, que em estudos anteriores mostrou modular a objetificação em ambos os gêneros.
A inspiração para o uso da estimulação cerebral veio de estudos sobre a ilusão de Thatcher, onde rostos com características faciais invertidas parecem grotescos na posição correta, mas quase normais quando invertidos. Descobriu-se que uma corrente elétrica fraca podia restaurar a capacidade de reconhecer rostos “thatcherizados” na posição correta. Os pesquisadores se perguntaram se o mesmo efeito poderia ser observado com imagens de mulheres sexualizadas.
No novo estudo, 76 estudantes universitários participaram de um experimento duplo-cego onde metade recebeu estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS) e a outra metade um placebo. Os participantes memorizaram fotos de modelos masculinos e femininos em poses de roupa íntima, metade delas invertidas. Posteriormente, eles precisaram identificar as fotos que já haviam visto. Os resultados do grupo placebo replicaram os achados anteriores: melhor reconhecimento de homens na posição correta e um desempenho semelhante para mulheres, independentemente da orientação. Contudo, no grupo que recebeu a estimulação cerebral, o reconhecimento de mulheres na posição correta melhorou significativamente, eliminando a diferença de percepção entre homens e mulheres sexualizadas. A estimulação não afetou o reconhecimento de homens.
Os autores do estudo teorizam que o cérebro, com a experiência, aprende a focar em detalhes que distinguem indivíduos. No entanto, características que atraem a atenção de forma exagerada, como partes do corpo expostas em imagens sexualizadas, podem ofuscar esses detalhes distintivos. A corrente elétrica, segundo a hipótese, poderia enfraquecer essa atração excessiva. É crucial notar que o estudo teve limitações, incluindo uma única sessão em laboratório, foco em estudantes universitários e a medição apenas de efeitos imediatos, sem avaliar atitudes ou comportamentos a longo prazo. Além disso, todas as imagens eram sexualizadas, tornando difícil isolar o efeito da sexualização pura. Embora a estimulação cerebral não seja uma solução para o sexismo, a pesquisa sugere que a objetificação pode ser um hábito mental modificável, e não uma característica fixa da percepção humana, abrindo caminhos para futuras intervenções. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Social Neuroscience.
